Lençóis Paulista - Os dados levantados durante a pesquisa sobre a escravidão em Lençóis Paulista, através de fontes como registros de batismo e casamento, levaram o pesquisador Edson Fernandes a reunir indícios de que grande parte dos escravos constituíram famílias na região. Só no caso do batismo de crianças negras foram contabilizados mais de 300 registros.
Fazenda abriga relíquia
Lençóis Paulita - A Fazenda Faxinal, em Lençóis Paulista, é um dos poucos locais, se não o único na cidade, que abriga vestígios de uma construção erguida pelos escravos.
No local, Casali preserva parte de uma senzala com mais de 100 anos. Muitos detalhes foram soterrados pelo tempo, e atualmente apenas uma parede da obra mantém a estrutura original do período. “Ela foi construída com barro, esterco de curral, capim. A parede não tem alicerce, mas está agüentando mais do que as de hoje. A gente tenta preservar o máximo até para mostrar para os nossos filhos â€, afirma o filho do proprietário, Ivens José Casali, 42 anos.
O pai conta que anos atrás também poderia ser visto no local um tronco, onde os escravos seriam castigados. Entretanto, afirma desconhecer detalhes da história, já que os seus antepassados eram italianos e chegaram ao local depois da abolição. Na época dos escravos, o local pertenceu à família de Oliveira Lima, uma das mais tradicionais do período.
Para o pesquisador, esse é um dado relevante da pesquisa, porque, até uma época recente, muitos estudos sobre a escravidão desenvolvidos no país “coisificavam†os negros. “Isso mostrou para nós que os escravos tinham família. O escravo foi muito estudado como um ser coisificado. E na verdade hoje é diferente, a gente sabe que os escravos tinham um cotidiano, uma famíliaâ€, afirma.
Os documentos apontam ainda a existência de até três gerações de escravos vivendo no mesmo plantel. “Eu entendo que aqui em Lençóis, sem generalizar, não havia essa coisa de separar famílias.â€
Esses fatos levaram o historiador a tecer algumas considerações sobre o relacionamento de brancos e negros na região. Para Fernandes, muito mais do que o estigma de um escravo coisificado ou rebelde, é possível considerar que os negros elaboravam estratégias de negociação com os proprietários.
Fernandes exemplifica com a questão do casamento, que acabou se tornando algo vantajoso para ambos os lados. “Era interessante para o dono porque ele (o escravo casado) não fugia e gerava filhos. Se ele tem família, ele vai pensar duas vezes para fugir. Já para o escravo, que casava pelas leis da igreja católica, era interessante porque a união era indissolúvel e havia menos perigo de separar o marido ou a mulher.â€
O envolvimento entre senhores e escravas também ocorria. Há inclusive, de acordo com o pesquisador, um episódio de um proprietário de terra que ficou viúvo duas vezes e teve vários filhos com uma escrava. “Ele libertou os meninos e os colocou como parte de sua herança.â€
Segundo Fernandes, esses aspectos encontrados durante a pesquisa em Lençóis como a constituição de família e negociação de direitos por parte dos escravos são descobertas recentes da historiografia brasileira. “O escravo conseguia, às vezes, impor a sua vontade. Lógico, dentro do estreito limite de sua área de atuaçãoâ€, conclui.
Relacionamento
O fato de Lençóis Paulista ter sido povoada por pequenos proprietários, segundo o pesquisador, abre possibilidades para o levantamento de outra hipótese, a de que homens brancos e negros teriam estabelecido um relacionamento menos impessoal na região, quando comparado, por exemplo, à realidade das grandes fazendas do Vale do Paraíba.
Registros levantados por Fernandes apontam que há casos de escravos que permaneciam junto às famílias mesmo estando em idade avançada ou em condições de saúde bastante precárias. “Nas grandes fazendas, como no caso do Vale do Paraíba, os relacionamentos eram mais impessoais, porque você tinha que produzir para exportar. Aqui não, aquela exigência de produção não era grande, porque estava voltada para o mercado local.â€
Analisando os dados, segundo o pesquisador, também percebe-se que, em geral, o homem branco trabalhava em suas terras junto aos escravos, o que diminuiria o distanciamento entre as partes.
Um fato que ilustra certa flexibilização das relações, é o caso de um escravo que foi padrinho de várias crianças negras de proprietários diferentes, o que permite cogitar a mobilidade dos negros dentro da comunidade. “Havia um encontro entre os escravos, um certo relacionamento nos dias de casamento e batizado.â€
Há também a história de uma proprietária de terras, que alforriou de uma só vez seis escravos. “ E ao que tudo indica, o documento não fala nada sobre dinheiroâ€. Na pesquisa também foi levantado que casamentos mistos, entre negros libertos e escravos, foram permitidos pelos proprietários.
Entretanto, todas essas concessões, segundo o historiador, também podem ser analisadas como uma forma de controle dos brancos, que evitariam possíveis condutas rebeldes de seus escravos.
Na região, o historiador afirma que existiu um Quilombo em Botucatu, que provavelmente teria sido motivo de incômodo para os proprietários. “Há documentos que mostram as autoridades do município pedindo reforço policial para acabar com o Quilombo de Botucatu.â€
Entretanto, o campo de estudos da pesquisa não se estendeu para a consulta dos registros do poder judiciário da época, onde estariam relatados casos policiais ou tentativas de rebelião.
Mortes
Em relação às pesquisas dos registros de óbitos, Fernandes constatou que os escravos na região morriam em geral das mesmas doenças dos homens brancos na época, entre elas disenteria, lepra e tuberculose. “E a mortalidade não era muito maior entre os escravos que entre os brancosâ€, afirma.
Isso enfraquece, segundo o pesquisador, a idéia de que na região os escravos morreriam de maus-tratos ou atos de violência explícita. â€œÉ claro que, a partir do momento em que ele era propriedade de alguém, era explorado, e a violência aí é intrínseca. Mas não há indícios de violência que a gente costumava imaginar.â€
Fernandes afirma que, em geral, os homens brancos padeceram no período da mesma precariedade de condições médicas que os escravos. E devido às dificuldades de uma região isolada, a qualidade de vida provavelmente não teria sido tão diferenciada entre as classes. “Não que a do escravo fosse boa, mas é que a dele (do homem branco) também era ruim.â€