No mês passado fiz uma palestra sobre o papel da família e da escola no processo de educar uma criança, e depois respondi a algumas perguntas, todas muito interessantes. Vou comentar sobre uma em especial, feita por uma mãe:
“Meu filho tem onze anos e adora brincar com o videogame. Eu procuro lhe explicar sempre que existe uma diferença entre o jogo, que não é real, e a vida, que é real, mas não sei se apenas isso é suficiente, o que mais eu posso fazer?â€.
Respondi que sempre os meninos brincaram de mocinho e bandido, mas que tudo mudou. Há 30 anos quando em um filme alguém atirava em alguém, o que era atingido simplesmente caia. Morto? O máximo que se via era uma mancha em sua camisa, significando que ele foi atingido pela bala. Quando as crianças “daquele tempo†brincavam e um atirava no outro, repetiam a cena, numa imitação que era muito parecida.
Hoje quando alguém atira em alguém vemos a bala saindo do cano da arma, percorrendo a distância até o alvo, penetrar no peito ou na cabeça da vítima arrancando pedaços de órgãos e fazendo muito sangue jorrar por todos os lados. Vemos a bala saindo da vítima que sempre é arremessada para trás, quebrando vidraças em mil pedaços e fazendo um barulho imenso. Não dá para imitar essa desgraceira em uma brincadeira, por isso as crianças preferem o videogame onde tudo isso, e muito mais está disponível.
A violência de antes era menos técnica, menos distorcida e mais real, quando as crianças brincavam costumavam se ferir, o que, de certa forma lhes mostrava que existiam conseqüências. Além do que, por trocarem os papéis a todo momento (ninguém queria ser sempre bandido), aprendiam se comunicar, interagir, e a perceber que tudo possui limites.
Hoje, quando a criança brinca de “violênciaâ€, mesmo que um amigo participe, ela utiliza uma posição que não é nem a dela nem a do outro, mas sim “a da telinhaâ€, para matar e fazer sangrar a vontade. É uma experiência que estimula a competição, o desafio, o destruir, aniquilar, e sem nenhuma conseqüência.
Parece que não existe problema, porque tudo é virtual, ledo engano, nosso cérebro não faz essa distinção, para ele tudo é real. Depois de “brincar†horas seguidas de matar de todas as formas, o cérebro da criança (ou do adulto) está violento. É possível que numa discussão qualquer, mesmo durante a refeição, agrida alguém sem ter controle sobre essa ação.
Impor limites. Eu disse impor, porque dependendo da idade a criança não terá condições para entender os seus motivos, mas aprenderá que existe uma ordem em sua casa, uma disciplina, uma hierarquia. Se, por conta de não traumatiza-lo você o deixar fazer o que deseja, amanhã, a polícia, os próprios colegas de escola, ou de trabalho, o ensinarão da forma mais inadequada possível, que existem regras, valores e limites.
Eu já disse isto, mas vale repetir: “uma palmada na bunda, na hora certa,muito bem dada, nunca matou nem traumatizou ninguém, mas, a falta dela, com certeza já matou muitosâ€. Pode não ser fácil, mas é possível, e é o que precisa ser feito. (O autor, Manuel Castro Lahóz, é médico psicoterapeuta cognitivo, escritor e consultor de empresas na área de Excelência Pessoal)