09 de julho de 2026
Regional

Polícia flagra desmatamento gigante

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Cabrália Paulista - Uma denúncia anônima levou a Polícia Ambiental a descobrir um dos maiores desmatamentos da nossa região, nos últimos cinco anos. Seis hectares e meio de preservação permanente e 21,6 hectares fora da área de preservação foram desmatados para plantação de soja. A área é equivalente a 40 campos de futebol.

As cerca de 400 árvores derrubadas estavam sendo queimadas e enterradas para despistar a polícia. O proprietário da fazenda vai ser autuado e o caso enviado ao Ministério Público.

A antiga fazenda Sucuru, hoje Nossa Senhora Aparecida, no município de Cabrália Paulista (46 quilômetros a Sudoeste de Bauru), foi vendida recentemente e nem mesmo os funcionários sabiam a identificação completa do atual proprietário.

A polícia Ambiental vai fazer o levantamento junto ao cartório da cidade para notificar e autuar o homem que autorizou o desmatamento, segundo informou o tenente Nilson Fidelis da Silva.

O policial frisa que a localização da fazenda facilitou a ação do proprietário. “ A propriedade rural é de difícil acesso. Acreditamos que ele estava agindo de má-fé, uma vez que estava com duas máquinas trabalhando no fim de semana.”

Outro fator que pesa contra o infrator é o fato das árvores estarem sendo queimadas e enterradas, deixando o terreno como se nunca tivesse tido qualquer plantação. “Ele estava queimando toda a madeira e enterrando com um trator. São mais de três valas encontradas na área”, disse o policial.

De acordo com o tenente, em dois dias, os cerca de 28 hectares estariam devastados. “ Pouco mais de seis hectares é de preservação permanente e os outros 21 não necessitavam de autorização. As árvores com mais de oito metros de altura não podem ser derrubadas dessa maneira”, contou ele.

Nascente

O desmatamento na área de preservação permanente pode significar um prejuízo incalculável para a humanidade, ressalta o tenente. “Nessa área haviam muitas pequenas nascentes de água. Juntas, elas deságuam no rio Tietê, que fornece o líquido para todo o Estado de São Paulo.”

A derrubada das árvores ao redor das nascentes pode secar a mina, segundo o Silva. “Quando você retira a mata ciliar, a tendência é que a mina seque porque há o rebaixamento do lençol freático. Esse cidadão não tem consciência da situação e suas conseqüências.”

O tenente lembra que a água potável está se tornando rara, graças a este tipo de comportamento. “O século 21 será marcado por guerras em função da falta de água potável. Ele ia destruir todas as nascentes existentes na propriedade pelo desmatamento e soterramento.”

O impacto ambiental provocado pela devastação vai além, informa o policial. “Não é só a questão do desmatamento em si mas, as nascentes são os berçários dos afluentes dos grandes rios. Essas pequenas nascentes despejam água em córregos maiores que vão desaguar no Tietê.”

Para dar uma melhor dimensão do problema, o policial faz uma analogia com o corpo humano. “Se deixarmos secar os vasinhos, as artérias e veias vão necrosar e o corpo vai morrer. O mesmo vai ocorrer com os rios que abastecem a população se acabarmos com as pequenas nascentes.”

Este problema de desmatamento já ocorreu na nossa região. “ A nascente do rio Lençóis, em Agudos, por exemplo, está um areial. As pequenas nascentes foram desmatadas. As áreas de preservação não foram cuidadas e quando a humanidade acordar, podemos ter um deserto. Aqui ia acontecer o mesmo.”

De acordo com o policial ambiental, além dos problemas enumerados, há ainda o impacto sobre o ecossistema. “Os animais que viviam nessa mata e ingeriam dessa água, foram embora ou morreram, isso causa um impacto negativo para o meio ambiente.”

Agravante

Dois tratores de grande porte estavam sendo usados pelos funcionários da fazenda para derrubar as árvores, no último sábado. “Fazer o desmatamento no final de semana é uma agravante do caso. Calculo que no sábado e domingo, eles conseguiriam derrubar toda a mata. Hoje, (segunda-feira), tudo já estaria enterrado e a terra começaria a ser preparada para a plantação de soja.”

Segundo o tenente, assim que o proprietário for identificado e qualificado, ele será autuado. No campo administrativo, cabem duas autuações. A área de preservação permanente é um tipo de infração e a área maior, fora da preservação permanente, cabe outro tipo de autuação. Em ambas, será cobrada multa: uma no valor de R$ 6.128,33 (pelo desmatamento da área de preservação permanente) e a outra no valor R$ 7.562,12 (fora da área de preservação).

Outra autuação, segundo a Polícia Ambiental, será aplicada pela construção de uma represa, sem autorização, dentro da área de preservação permanente. A multa deverá ser de R$ 3.676,22. “No campo penal, o proprietário está cometendo um crime previsto no Código Ambiental, no artigo 48, que prevê detenção de seis meses a um ano”, informou o tenente.

O relatório e o Boletim de Ocorrência que registram o desmatamento serão encaminhados para o Ministério Público. “O promotor de Justiça poderá denunciá-lo por crime ambiental e o infrator responderá a um processo crime”, disse.