Muito se falou nos últimos tempos sobre as divisões na União Européia (EU) e de sua fragilidade em relação ao futuro. É compreensível, devido ao trauma que significou para a Europa a guerra contra o Iraque; mas não deixa de ser sintomático que isto ocorra em um momento decisivo da construção européia.
Não é de se estranhar que a UE tenha detratores e adversários, alguns velhos e outros novos, já que se trata do projeto político mais ousado e mais original que o mundo conheceu desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Além disso, contraria os preconceitos nacionalistas dos que ainda continuam apegados a certos atributos de soberania do Estado-nação, ignorando que estão submetidos a uma corrosão constante devido à globalização. Por quê? Porque a globalização neoliberal estimula a expansão e a concentração das grandes multinacionais, que hoje têm orçamentos anuais que superam os da maioria dos Estados com assento nas Nações Unidas.
Sua estrutura de tipo federal representa a união de Estados e, também, de povos - daí a cidadania européia - sob o princípio da igualdade e da solidariedade entre todos seus membros, sejam Estados grandes ou pequenos, mais ou menos ricos. O mundo precisa da UE. Isto é percebido de forma quase instintiva pelos países do Terceiro Mundo, os mais pobres e dependentes. A União Européia é um dos grandes apoios das Nações Unidas e de suas agências especializadas, depositárias do direito internacional e da precária ordem mundial em que vivemos. É um dos principais canais para o diálogo com as grandes nações como Brasil, China, Japão, Índia, Indonésia e África do Sul. E também é o contrapeso que faz falta para equilibrar o mundo em relação à hiperpotência emergente, os Estados Unidos.
A recente reunião de chanceleres, realizada em Rodes sob a presidência grega (que, diga-se de passagem, está sendo excelente), tratou de dissimular as brechas abertas na UE entre os países considerados “atlantistas” e os “europeístas”. Estimo que essas brechas não serão duradouras, já que todos têm interesse em superá-las rapidamente.
Blair, o único dos líderes europeus que pode se vangloriar de manter uma “relação especial” com o sócio norte-americano, não deixará de tirar as lições adequadas da derrota eleitoral que registrou nas últimas eleições municipais no Reino Unido. O Partido Trabalhista ficou à altura do Partido Liberal Democrático, cada um com 30%, enquanto o Partido Conservador chegou a 33%. O governo da Espanha, a poucos dias das eleições do dia 25 deste mês, não deixará de ser cuidadoso, embora a proposta de incluir a Herri Batasuna na lista de movimentos terroristas não prometa nada de bom. Na Itália, o governo de Berlusconi, confrontado pela Justiça de seu país em um combate mortal às vésperas de assumir a presidência da União Européia, tem todos os motivos para se esforçar em aparar as arestas criadas no bloco pela guerra contra o Iraque.
Nesse contexto, Alemanha, França, Bélgica e Luxemburgo avançaram para uma “cooperação reforçada” na esfera da integração de suas forças armadas e de suas indústrias bélicas. Alguns comentaristas um tanto desavisados apressaram-se a gritar que se tratava de um escândalo. Mas não há tal coisa, já que esses países estão indicando para a área da defesa o mesmo caminho que foi seguido para se criar o euro e para estabelecer o Tratado de Shengen. É um caminho que estará aberto a todos os Estados-membros que desejarem segui-lo, como já ocorreu no passado e acontecerá no futuro em outras esferas. (Mário Soares foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996)