Em uma matéria sob o título “De Cultura, Borboletas e Furacões”, inserida no espaço editorial do Jornal da Cidade (18/5/03), o jornalista Zarcillo Barbosa tece considerações sobre a atual política cultural brasileira, mais especificamente sobre a “orientação às empresas estatais para priorizar ajuda à produções artísticas com contrapartida social”, (dirigismo cultural), de que foi acusado o Partido dos Trabalhadores pelos cineastas Cacá Diegues e Luiz Carlos Barreto. O assunto é complexo pois envolve um conjunto de políticas públicas direcionadas em princípio à cultura popular, objeto de nossa preocupação.
Quando Cacá Diegues diz que a contrapartida social ao dinheiro público seria a própria obra que é um bem cultural autônomo, Zarcillo contesta afirmando que “Também não é bem assim; todas as ações do homem são, a rigor, manifestações de arte e, não por outra razão, fala-se na arte do poder, na arte da política, na arte de amar. Como em certas reflexões, trabalho e arte se ajustam e se contrapõem”.
Segundo os prof. dr. Marcos Ayala/Maria Ignez Novais Ayala (UFPB), a cultura popular no Brasil esteve sempre associada mais ou menos direta e intensamente, às discussões sobre a nacionalidade (lutas políticas e ideologia). Pergunta-se: O que é cultura popular? Como os interesses do “povo brasileiro” são representados nessa cultura? Que tipo de atuação cabe aos artistas, estudantes e outros intelectuais nesse campo?. Na década de 60, os Centros Populares de Cultura (CPCs) discutiram esses problemas visando transformar seus posicionamentos em interferências concretas na realidade. Na concepção do CPC, tornada pública no “Anteprojeto do Manifesto do CPC”, a cultura só poderia ser popular na medida em que fosse revolucionária, caso contrário, o povo, alienado, incorporaria os padrões ideológicos da classe dominante, tornando-se, portanto, incapaz de discernir claramente seus próprios interesses.
À interpretação gramsciana de hegemonia nos meios culturais e ideológicos, com os quais os grupos dominantes na sociedade, incluindo a classe dominante, preservam seu domínio, assegurando o “consentimento expontâneo” dos grupos subordinados, acrescentaríamos o pensamento do semiólogo francês Roland Barthes (1915-1980) que disse: “A cultura não pode ser considerada universal e tampouco pode ser vista dissociada das condições sociais em que se localiza”. (Tito Pereira - CRO-DF/546)