O número de associações de moradores que atuam em Bauru já não é mais o mesmo. Quem faz a afirmação é o presidente da Federação da União das Associações de Moradores de Bauru e Região Centro-Oeste, Jesus Adriano dos Santos. Ele diz que a cidade tem cerca de 110 entidades, mas apenas 10% delas são atuantes, contra 50% há dez anos.
Falta de tempo, desânimo e uso político das entidades estão entre as causas apontadas para o fenônemo, verificado ao longo da última década.
Um dos exemplos é o Centro Comunitário da Vila Independência. O local, que antes abrigava reuniões e eventos do bairro, desde março serve de abrigo para as famílias que foram despejadas de uma ocupação irregular no Jardim Ferraz.
Uma das moradoras do bairro, Jeanete Mauad Marques, diz ter saudades da época em que a associação de moradores funcionava. “Ela faz muita falta. Nós tínhamos, por exemplo, convenções com o pessoal do posto de saúde e reuniões para as senhoras que moram aqui”, conta.
Para outra moradora, Patrícia Malagulini, a presença de uma entidade ajudaria na hora de reivindicar. “Nós sentimos falta de muita coisa, como orelhão e mais linhas de ônibus. A associação poderia mobilizar os moradores, promovendo abaixo-assinados. Quando eu morava na Bela Vista, sempre via os bazares organizados pelas lideranças do bairro”, lembra.
O presidente da Associação dos Moradores do Parque Santa Edwirges, Vivaldo Pereira Martins, diz que a queda de interesse pelas entidades é visível. “Antes, os encontros anuais eram muito concorridos. No último, não apareceu quase ninguém”, frisa.
Para o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, muitas associações existem apenas no papel. “Se analisarmos o universo delas, poucas são as realmente atuantes”, afirma.
O presidente da Associação dos Moradores das Pousadas da Esperança 1 e 2, Natalino David da Silva, concorda. “Dá para contar nos dedos as que funcionam ativamente.”
Já o secretário municipal das Administrações Regionais (Sears), Arlindo Figueiredo, pensa de maneira diferente. “Não podemos generalizar. Há uma grande quantidade de associações atuantes. Os líderes têm nos procurado com freqüência.”
O presidente da Federação da União das Associações de Moradores de Bauru e Região Centro-Oeste, diz que a cidade tem hoje cerca de 110 associações de moradores, mas reconhece que poucas funcionam com eficácia. “Não chegam nem a dez. As dificuldades começam pela montagem da diretoria. No início, é aquela empolgação e, depois, fica só o presidente”, afirma.
Ele aponta o desânimo como o principal responsável pelo problema. “Tínhamos cerca de 50% das associações atuantes há cerca de dez anos. A auto-estima foi baixando com o passar do tempo. Costumávamos ter um contato quase diário com a prefeitura e tínhamos mais espaço para reivindicações. Também não há mais tantas lideranças que representem um clamor popular.”
Santos diz que tem um projeto para mudar essa situação. “Há muito disparate entre os estatutos de cada associação. Estamos convocando todas elas para unificar as regras do jogo. Queremos oferecer certificados para as novas diretorias e estimular as entidades a montar cursos que possam propiciar uma formação aos moradores e, ao mesmo tempo, gerar uma receita para elas.”
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Movimentos sociais
A socióloga e professora do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Maria Antônia Vieira Soares, acredita que não são apenas as associações de moradores que perderam força nos últimos anos. “Os movimentos sociais como um todo sofreram uma retração e estão arrefecidos, o que é lamentável. Sem eles, a cidadania fica comprometida”, explica.
Para ela, há um desencanto com a possibilidade de sucesso das reivindicações. “A voz do cidadão é pouco ouvida e a persistência está comprometida. O único grupo que se mantém atuante é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e, mesmo assim, está em um momento difícil, sem saída. Os grandes sindicatos também estão desarticulados”, lembra.
Soares acredita, porém, que os movimentos sociais podem ressurgir. “É um momento de transição, em que as pessoas estão um pouco confusas. Existe o arrefecimento, mas eles não estão mortos.”