08 de julho de 2026
Geral

Mesmo sem recursos, zôos se destacam

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 8 min

Como em diversos ramos de atividade, nos zoológicos brasileiros não é diferente: os recursos são escassos. Apesar das dificuldades, eles destacam-se na América Latina e no mundo. A informação é de Raul Gonzalez Acosta, presidente da Sociedade de Zoológicos do Brasil (SZB).

Ele esteve em Bauru durante a última semana em virtude da realização do 27.º Congresso da Sociedade de Zoológicos do Brasil. Acosta nasceu no México, mas há 22 anos vive em terras brasileiras.

“Eu costumo falar o seguinte: eu sou mais brasileiro que você. Você é brasileira compulsória; não teve escolha. Eu escolhi a minha nacionalidade”, justifica.

Embora formado em economia e pós-graduado em educação, há 12 anos Acosta trabalha no ramo de animais. “De 12 anos para cá, eu só falo de bichos”, reforça.

Concluindo seu segundo mandato na SZB e prestes a iniciar o terceiro (a eleição foi realizada na última quarta-feira), Acosta, que também é diretor do Jardim Zoológico de Brasília, tece elogios ao Zoológico Municipal de Bauru e destaca as qualidades do Brasil nessa área. “Com certeza, de toda a América Latina. Somos os mais evoluídos”, salienta.

Confira a seguir trechos da entrevista concedida ao JC durante o congresso.

Jornal da Cidade - Qual é a importância e o objetivo do Congresso da Sociedade de Zoológicos do Brasil? Raul Gonzalez Acosta - Todo ano se celebra um congresso nacional - e em alguns anos até internacional - porque é muito importante a troca de experiências, a troca de informações. A atividade de fauna em cativeiro é muito específica. Então, a comunidade funciona como se fosse uma irmandade. A gente mais ou menos conhece todos os colegas. Como são inúmeras espécies que se trata em cativeiro, você não sabe tudo de cada espécie. É necessário sempre ter a humildade de trocar informações e conhecimentos porque isso vai trazer como resultado a melhor qualidade de vida dos animais - tanto em cativeiro quanto na natureza. Por isso a importância desses congressos. Eu diria que a questão mais importante de um congresso é justamente essa: a troca de informações e de conhecimentos.

JC - O que o senhor destacaria como bons resultados dos congressos anteriores? Acosta - Primeiro, o crescimento dos zoológicos brasileiros. Nos últimos 20 anos eles tiveram um crescimento muito acelerado, apesar de nós termos muitos problemas. Nós não somos instituições sem problemas. Somos instituições com muitos problemas. Nós temos problemas de coleção, temos problemas de identificação, de funcionários, financeiros, de recursos... Hoje, por exemplo, no nosso País, o mais sério problema é a escassez do dinheiro. O capital é curto para qualquer um. Ainda mais nos zoológicos, porque 90% dos nossos zoológicos hoje pertencem à esfera municipal. Ou seja, são da índole pública, do setor público. Não são particulares. O setor público tem todas essas dificuldades de recursos, então, nós temos problemas nos zoológicos. Mas apesar de tudo isso, temos evoluído grandemente. Com certeza, de toda a América Latina, somos os mais evoluídos. Aqui no Brasil nós temos, no que se refere a zoológicos, uma lei federal aprovada pelo Congresso Nacional. Temos portarias, instruções normativas. Quem quiser hoje instalar um zoológico tem toda a instrução normativa que mostra o caminho de como fazer. Inclusive das dimensões dos recintos por espécie. Hoje, isso tudo está regulamentado no Brasil e em nenhum outro país. Nem nos Estados Unidos está regulamentado. Temos aqui coisas muito boas. Temos evoluído muito nesses últimos 20 anos no Brasil, em matéria de zoológicos. Um dos exemplos é Bauru. Assim como Bauru, há outras instituições zoológicas que estão na mesma situação. Vão crescendo, vão se fortalecendo, vão tendo um trabalho mais sério em conservação, educação, pesquisa, ampliam as opções de lazer.

JC - O Zoológico de Bauru pode ser considerado modelo no País? Ou ainda falta muita coisa? Acosta - Na nossa opinião, um zoológico é bom ou ruim quando analisamos em termos qualitativos, e não quantitativos. Um zoológico com 100 animais pode ser perfeitamente o melhor zoológico. Não necessariamente um zoológico com 10 mil animais é o melhor. Significa que deve ter um corpo técnico de qualidade - médico veterinário, biólogo, tratadores, auxiliares de veterinária -, com profissionais que trabalhem com enriquecimento para melhorar qualidade de vida dos animais que estão presos, que saibam as dietas adequadas para os animais, recintos adequados, programa de medicina preventiva, coleção com animais identificados, plano de coleção, um zoológico que saiba o que quer. Todas essas variáveis e talvez algumas outras nos darão a qualidade do zoológico. Não adianta ter 10 mil animais e não saber a origem deles. Para nós, o zoológico de Bauru é um dos melhores do Brasil, com certeza.

JC - Entre os zoológicos que se destacam no País, quais outros o senhor citaria? Acosta - Eu citaria São Paulo (estadual), Brasília (estadual), Belo Horizonte (municipal) e Rio de Janeiro (municipal). Apenas como exemplo.

JC - Há diferença de qualidade entre as instituições públicas e as de iniciativa privada? Acosta - As privadas são apenas 10%. Para ser considerado sério, o zoológico precisa trabalhar com quatro grandes objetivos: educação, lazer, conservação e pesquisa. Quando você tem um interesse comercial, um desses objetivos pode ser comprometido. Por isso a dificuldade de opinar. Se você tem a atividade zoológico como uma atividade particular, evidentemente é comercial. Ninguém tem um zoológico particular para perder dinheiro. A partir do momento que tem que ganhar dinheiro, o objetivo é comercial. E, para atingir esse objetivo, você pode, por exemplo, sacrificar programas de educação. Quem tem obrigação com a educação? O Estado brasileiro.

JC - Geralmente as pessoas vêem o zoológico como uma atividade estritamente de lazer. De que forma a educação pode ser inserida nesse ambiente? Acosta - Os zoológicos têm que criar programas de educação. Esses programas têm tantos projetos quanto ele conseguir realizar. O importante é que todo zoológico deve ter um programa de educação. Nem que seja só para fazer visitas monitoradas. Por que? Porque através desses programas de educação estamos mudando alguns comportamentos. Através desses programas, se mostram os hábitos dos animais, a importância que eles têm dentro de uma cadeia alimentar, de um ecossistema, o que pode acontecer se esse animal faltar na natureza... Tudo isso se realiza através de programas educacionais.

JC - No âmbito das atividades exercidas pelos zoológicos, o que mais preocupa a Sociedade de Zoológicos do Brasil? Há muitas irregularidades? Acosta - Quando foi regulamentada a questão dos zoológicos no País, em 1982, já existiam inúmeros zoológicos. Veio a lei, portarias e eles tiveram que ir se adaptando a essa nova realidade com o tempo. Os zoológicos sempre foram verdadeiras vitrines de animais. Havia um animal preso e o povo ia lá só para ver o bicho preso. Os novos zoológicos surgem dentro de uma nova realidade. O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), no ano passado, fiscalizou no Estado de São Paulo todos os zoológicos. De 43, em apenas seis foram encontradas irregularidades. Foi pedido o fechamento de dois, e os outros quatro assinaram termos de ajustamento de conduta, com prazo para correção das irregularidades. Então, em torno de 75% das instituições fiscalizadas estão com tudo em ordem. Podem até ser instituições humildes, com poucos recursos, mas não são ruins. Têm compromisso e com certeza vão conseguir descobrir mais coisas que os grandes, que só estão preocupados com a grandeza. Isso não interessa.

JC - A escassez de dinheiro reflete mais no tratamento dos animais, na falta de pesquisa, conservação ou educação? Acosta - Têm zoológicos que necessitam fazer reformas nos recintos e essas reformas são atrasadas. Isso evidentemente não gera qualidade de vida para o animal que está em cativeiro. Existem zoológicos que também, por falta de recursos, não implementam programas de educação ambiental. Sem falar das pesquisas... Às vezes não se monta um projeto de pesquisa porque não há recursos. Na parte de lazer também há problemas. Você pode criar alguns equipamentos de lazer dentro do próprio zoológico, pode trazer outros animais para gerar mais lazer, mas não traz porque não existem recursos necessários para expandir essa idéia. A falta de recursos influencia, mas tem uma coisa importante que temos no nosso País: a criatividade. Muitas vezes a criatividade aparece e as coisas se realizam. Seria fazer com amor e com criatividade.

JC - Qual é o trabalho que a Sociedade de Zoológicos do Brasil desenvolve? Acosta - Ela é importante porque troca informações com todos os zoológicos do País; ela os organiza para poder lutar por melhorias. Se cada um lutar pelo seu lado, dificilmente conseguem as coisas. Se lutam todos juntos, fica mais fácil discutir as coisas. A Sociedade representa os interesses dos zoológicos brasileiros perante qualquer segmento - sejam as autoridades brasileiras ou o Congresso Nacional. Outra coisa importante é que, anualmente, a Sociedade de Zoológicos do Brasil gera um senso dos animais que estão em cativeiro nos zoológicos. Hoje nós temos em torno de 40 mil animais em cativeiro nos zoológicos brasileiros. Esses dados ninguém tem. O Estado tem porque nós enviamos para as autoridades governamentais que trabalham com essa área. Trabalhamos em conjunto com inúmeras outras ações, tanto do governo federal quanto estaduais e municipais.

JC - Como diretor do Jardim Zoológico de Brasília, eu gostaria que o senhor falasse sobre o que motivou a doação da girafa para Bauru. Acosta - Por que nós escolhemos Bauru? Você acha que Bauru merece? Essa é a resposta. Uma girafa é vida e merece todo o nosso respeito e todos os nossos cuidados. O Zoológico de Brasília tem absoluta certeza de que no Zoológico de Bauru se trabalha com qualidade. Estamos entregando a nossa filha para quem a gente confia. Não vamos entregar para quem não confiamos.