José Mojica Marins é uma lenda do cinema nacional. Não só por ter criado um de seus personagens mais famosos, o Zé do Caixão, mas também por ter sobrevivido por mais de cinco décadas na montanha-russa do mercado cinematográfico brasileiro.
O cineasta esteve em Bauru no início do mês para ministrar um workshop sobre cinema na Oficina Cultural “Glauco Pinto de Moraes” e concedeu uma entrevista ao JC na qual fala sobre planos futuros, seus filmes favoritos e - claro - Zé do Caixão. A seguir, os melhores trechos.
Jornal da Cidade - Em que projeto o senhor está trabalhando hoje? José Mojica Marins - Atualmente estou preparando vários roteiros. Estou com umas quinze propostas de trabalho mas todas elas estão naquela Lei Rouanet, Lei não sei o quê... Se eu conseguir vai ser a primeira vez que eu vou ter ajuda do Governo para fazer uma obra. Estou em negociação com várias pessoas, entre elas o Branco Mello, dos Titãs.
JC - O que eles querem fazer? Marins - Eles querem fazer um longa de terror no qual querem compor toda a trilha-sonora. Se eu precisar, eles disseram que atuam também. Mas todos esses projetos ainda estão na espera. Sabe como é, vem Carnaval, depois vem a guerra, depois vem a Páscoa... Então essas coisas vão começar a acontecer lá pra julho.
JC - Quando o senhor lançou o seu último filme? Marins - Como ator eu estou sempre fazendo. Fiz “O Homem sem Terra”, no Rio Grande do Sul, em 1998 e fiz um curta para a Globo - para dizer que ela não me dá uma chance - no ano retrasado, “Parto Nervoso”, que foi exibido no programa do Luciano Huck. Agora estou terminando um curta rodado em película, mas são esses projetos que eu estou esperando. Acho que vou conseguir lançar dois longas esse ano. Em julho também vou lançar uma revista em quadrinhos, a “Terceira Força - O Mundo Imaginário de Zé do Caixão”. Talvez eu lance um filme com a minha filha, que também é filha do Zé do Caixão. É uma história na qual ela tem uns poderes mutantes e sai busca do pai, até que a gente acaba se encontrando.
JC - O senhor tem feito cinema há décadas, como vê a produção nacional hoje? Marins - Estou contente com os filmes que têm saído, como o “Cidade de Deus”. Agora tem o “Carandiru”, acho fantástico que o Babenco - que não é brasileiro - tenha feito um filme com um tema tão arrojado que, com certeza vai explodir no mundo todo. No Brasil nunca houve um lançamento como esse em tantas salas e a bilheteria já é maior do cinema nacional. Depois daquele homem que quis colorir o Brasil (Fernando Collor de Mello), aquele que eu considero o maior mágico do Brasil porque conseguiu sumir com o dinheiro das pessoas de um dia para outro, depois que ele deixou o cinema agonizando, com só uma produção naquele ano, agora estamos conseguindo levantar, sair do coma. Nosso cinema já engatinhou nos anos 50 com a Vera Cruz, que fez “O Cangaceiro”, depois nos 60 parecia que ia pegar fogo de novo com o Cinema Novo mas acabou com a ditadura. Agora estamos dando os primeiros passos de novo...
JC - Quais são seus filmes favoritos? Marins - Eu cito um nome insubstituível, que a gente tem que abaixar a cabeça sempre, que é o de Charlie Chaplin. Mesmo depois que ele fez “Luzes da Ribalta”, um cinema sonoro, com o qual ele não se dava bem, ele conseguiu confirmar o seu talento. Acho que ninguém substituirá ele ou seus filmes. Outro filme que nunca vai sair de moda, seja no cinema ou na televisão, que eu gosto é “... E o Vento Levou”. Em mil anos, dois mil anos, ninguém vai fazer um filme como esse. Agora, dentro do meu gênero eu acho que, visualmente, “Poltergeist” é muito forte. De terror, o filme que mexeu comigo foi “O Bebê de Rosemary”, do Polanski. “O Silêncio dos Inocentes” e as suas continuações também são filmes fortes. Tem alguns filmes novos que eu ainda não vi mas que me interessam muito, como os das séries “X-Men” e “Matrix”, que começou essa coisa da computação num nível incrível. Estou curioso para ver a luta do Wolverine no novo filme. Sou fascinado pelo mundo dos quadrinhos.
JC - As garras do Wolverine podem competir com as do Zé do Caixão... Marins - Só que eu sou diferente dos outros porque os personagens sempre vão dos quadrinhos para o cinema e eu fiz o contrário, comecei no cinema e fui para os quadrinhos.
JC - O Zé do Caixão ainda é tão popular hoje como no passado? Ele seguraria a onda diante de filmes de terror cheios de sangue ou efeitos mirabolantes? Marins - Segura a onda sim, meus filmes são exibidos no mundo todo e o público lota os cinemas. Já vi salas cheias na Holanda, Alemanha, Itália... até mesmo na Argentina com filmes meus. O Zé do Caixão está mais vivo do que nunca, mesmo eu não fazendo mais filmes com ele. Recentemente, alguns filmes meus saíram em DVD, isso meu deu uma força muito grande. Pessoas que nunca tinham visto obras minhas estão vendo os filmes e dizendo: “Nossa, olha o que eu perdi”. Eu tenho um público adolescente muito grande e é esquisito ter fãs que nunca viram a sua obra, as pessoas estão correndo atrás agora.
JC - O que fascina as pessoas no Zé do Caixão? Marins - Eu acho que o Zé, com todo o seu sadismo em busca da mulher superior, fascina as pessoas porque elas querem saber quem é essa mulher superior. Ele também tem uma proteção pela pureza da criança, pela inocência delas e isso também chama a atenção. Além disso o Zé não tem preconceito, ele não está procurando a raça ariana, apenas a mente perfeita, que as pessoas tenham mais solidariedade, se respeitem. Ele põe pra quebrar quando se depara com a ignorância humana. Ele é como o jacaré, se você passa longe ele não faz nada, se cruza o seu caminho, ele ataca.