Muitas aventuras de pescadores seguem os trilhos da ferrovia. A antiga Noroeste do Brasil, que saía de Bauru com destino a Corumbá e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, transportou em seus trilhos muitos pescadores em busca das surpresas do Mato Grosso, ainda desconhecido.
Nessas “contações” de histórias, há lendas sobre peixes e cobras gigantes e “causos” que muitos tremeriam só de ouvir. A combinação Mato Grosso e ferrovia sempre escondeu mistérios e agora deixa saudade. Com a interrupção do transporte de passageiros pelas estradas de ferro, a melhor opção é pelo asfalto, atravessando rios sobre pontes e, às vezes, por balsas.
Ferroviários aposentados aproveitaram bastante os tempos da ferrovia. “Nas férias, éramos autorizados a seguir com um carro para pescar no Mato Grosso”, comenta o artífice aposentado pela extinta Noroeste do Brasil Theodoro Fernandes, 73 anos.
Com um pouco mais de 20 anos, ele iniciou sua carreira na Estrada de Ferro do Brasil, onde aprendeu o ofício de ferreiro. Seus conhecimentos, além de lhe renderem a aposentadoria após 30 anos de trabalho, facilitam suas pescarias.
Theodoro Fernandes é pescador apaixonado e aproveita sua vida de aposentado para trabalhar. Trabalhar em seu lazer, que é fazer a tralha para a pescaria. Com muito capricho, ele faz todas as suas chumbadas, além de presentear os amigos. “O chumbo é derretido na caçamba (tipo uma grande colher de ferro), a mais ou menos 400 graus, e despejado na estampa (molde)”, explica.
Além das chumbadas, que produz em sua oficina, no fundo do quintal, Fernandes também já fez muitos anzóis. “O aço precisa ser derretido a 1.200 graus para que seja possível fazer o anzol. É mais trabalhoso”, diz o ferreiro. Ele explica que é necessário temperar o aço e de alta temperatura, o que exige uma fornalha.
Outro instrumento muito usado pelos pescadores que o artífice Fernandes faz questão de fazer é a faca. Com o capricho de artesão, ele faz a lâmina e depois o cabo. Aquelas facas industriais, que perdem seus cabos com o trabalho do dia-a-dia também são contempladas com um novo cabo.
Uma faca, na casa de Fernandes, só vai para o lixo quando realmente não serve para mais nada. Isso se ele não derreter e transformá-la em um canivete. Theodoro Fernandes também tem a ferrovia como vizinha em seu rancho, em Aquidauana. “Compramos o Rancho 10 há mais de 20 anos. O nome foi escolhido porque éramos em dez sócios. Hoje somos em oito e sempre fazemos o sorteio das datas no período de pesca”, explica.
Localizado entre as margens do rio Aquidauana e os trilhos da Noroeste, em Piraputanga, no Mato Grosso, para os ferroviários um lugar fácil de identificar: “É perto da Caixa d’água do Km 1008, onde as marias-fumaças eram abastecidas”.
Com o posicionamento estratégico do Rancho 10, às margens da ferrovia e também da rodovia, na época dos trens de passageiro, os pescadores aproveitavam a carona. “Pela vias normais, teríamos que ir até Piraputinga e voltar três quilômetros para chegar no rancho. Normalmente, pedíamos autorização para um engenheiro que comunicava o maquinista. Aí, ele ia bem devagarzinho com o trem, a gente jogava a tralha e depois pulava.”
O local é perfeito para as pescarias e teste das chumbadas de Fernandes, que faz a sua ceva e gosta de pescar no barranco. “Gosto também de pegar dourados. Lá tem muitas corredeiras, que exigem chumbadas mais pesadas”, explica o pescador.
Nas águas do rio Aquidauana, Fernandes já pescou muitos pintados, dourados, piaparas e curimbas. “Hoje ainda tem muito peixe por lá, mas não com os tamanhos que pegávamos no passado”, lembra Fernandes.