10 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: História de um caçador


| Tempo de leitura: 4 min

“Flávio é chamado de mano velho por seus irmãos, de Favião por seus cunhados e foi caçador de capivaras nos tempos idos e permitidos e ainda hoje é pescador dos bons. Gosta de mostrar que conhece o rio Batalha por cima e por baixo e vai sempre anunciando:

- Naquela reta tem pedregulhos no fundo do rio, na curva tem areia, depois da curva tem um ipê roxo, depois tem isso, depois aquilo...

Casou-se com uma das filhas do Zeca do Lucindo, seu leal companheiro de caçadas, pescarias e outras tantas aventuras pelo Batalha afora. Depois do seu casamento, mudou-se para a Fazenda das Palmeiras, de onde vem a nossa história de hoje.

Ainda novato naquela fazenda, demorou um pouco para enturmar-se com novos companheiros, ia sozinho caçar e pescar no rio Batalha e nem ligava para os conselhos que ouvia dos novos vizinhos:

- Cuidado seu Flávio, aqui tem umas onças deste tamanho!

- Eu navego no Batalha desde Tibiriçá até à sua foz em Uru e nunca vi uma onça, respondia o teimoso.

Certa tarde, mano velho juntou duas varas grossas para traíras, duas finas para bagres, uma sacola com apetrechos diversos, seu inseparável lampião a carbureto tipo gazômetro e saiu, novo disse, “buscar peixes”.

Andou a pé por mais de uma hora e chegou ao rio Batalha quando o pôr do sol anunciava o fim do dia e se propôs a pescar num lugar conhecido como bebedouro do Pedrão Boico, ao lado da boca do Água Parada e da vazante de uma lagoa existente por ali, pois pretendia revezar sua pesca em ambos os rios e também naquela lagoa. Muitas pessoas achavam feio aquele lugar mas o Flavião o achava lindo.

Durante o seu trajeto para o rio, nem se lembrou dos conselhos dos amigos, mas agora ali, sozinho, naquele ermo que parecia sem fim, sentiu o peso do silêncio, da solidão, da escuridão, dos cheiros do mato e do medo. Chegou até a admitir que poderia mesmo haver onças por ali. E por falar em cheiro, o que seria aquele cheirinho de pêlo molhado que estava sentido? Deve ser cheiro de alguma capivara, de um cateto ou uma anta, pensou tentando não lembrar-se de onças.

Por distração ou nervosismo, deixou cair uma das suas iscas na margem do rio e decidiu recuperá-la, indo até lá utilizando seu gazômetro para iluminar o caminho, quando viu na areia do Batalha algumas pegadas bem profundas, deixadas ali por algum animal muito grande e pesado que atravessou o rio a nado e saiu ali bem pertinho do nosso herói. Flavião percebeu que não eram rastros comuns, pois tinham cinco dedos em patas fechadas igual as dos gatos e suspirou assustado:

- Minha nossa! Capivara tem só três dedos, cateto tem pé de porco e anta tem pé de burro e essas aqui têm mão de gato deste tamanho! Ele ainda fechou sua própria mão e a comparou com aquelas marcas e viu que as mesmas eram muito maiores do que a sua. Continuou fazendo comparações calcando todo seu peso ao lado das pegadas para calcular o porte do animal e achou que o mesmo deveria ser três vezes mais pesado pois aquelas marcas eram três vezes mais profundas. “Nossa Senhora de Aparecida, então essa coisa pesa 180 quilos ou mais”, pensou angustiado. Chegou a julgar que daquele dia em diante só iria pescar de cartucheira... se saísse dessa.

Agora sim, ele se lembrava dos conselhos dos amigos e até do pai quando este dizia:

- As onças são sádicas como os gatos, pois primeiro elas barbarizam a sua vítima ainda viva, depois que quebram seu pescoço e levam tudo para os seus filhotes em pedacinhos, mas como todo bicho do mato elas têm medo de fogo.

Lembrando-se desses detalhes, Flavião aumentou ao máximo a chama do seu gazômetro, abandonou as iscas, varas, sacolas e saiu correndo tanto que os seus dois calcanhares batiam na bunda, mas o seu lampião ainda apagou-se. “Agora tá danado!” Falou sozinho. “Estou no mato sem cachorro, no escuro, desarmado e com uma baita onça fungando no meu cangote.”

Naquela noite o mano velho não dormiu nem deixou sua mulher dormir, pois ela mesma amanheceu no outro dia toda roxa de tantas cotoveladas que levou.

Flávio de Oliveira, esse é o seu verdadeiro nome, é meu irmão de sangue, de fé, de prato, colher e para o que der e vier. Ele faz aniversário em 30 de maio, vai ter muito churrasco, bebidas à vontade e depois de comer muita batata assada todos vão soltar alguns traques em volta da fogueira. Podem telefonar para ele para dar os parabéns e para perguntar sobre o horário da festança.

O difícil mesmo vai ser achá-lo, pois a história conta que ele ainda está correndo até hoje. Parabéns, mano velho.” (Eurico de Oliveira é aposentado, pescador e contador de história)