08 de julho de 2026
Auto Mercado

A 'santa' injeção eletrônica

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

Era uma situação rotineira na década de 80 até início da de 90. Você dormiu tranqüilo durante a noite inteira, mas já acordava mal humorado sabendo que teria de enfrentar uma verdadeira “maratona” pela frente. O motivo: efetuar a partida a frio no seu veículo a álcool. Em alguns casos, a dificuldade para sair andando era tão grande que o dono do automóvel desistia e resolvia ir a pé ou tomar um ônibus.

Entretanto, tal cenário atualmente só é comum em carros equipados com carburador e, mesmo assim, naqueles cujos proprietários colocam a manutenção para escanteio. É o que destaca o instrutor automotivo Lourival Ortiz de Camargo, da unidade bauruense do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Lourival explica que uma das principais razões para os veículos a álcool sofrerem nas partidas a frio é a própria característica físico-química do combustível. “Ele tem mais dificuldade de se misturar com o ar e, por isso, apresenta uma tendência natural, agravada em baixas temperaturas, de se separar dele. Já a gasolina possui melhor poder de queima e se mistura melhor ao ar para efetuar a combustão”, ressalta.

Apesar disso, é possível não ter problemas na hora de sair de manhã, mesmo nos carburados a álcool. Só que para isso, enfatiza Lourival, a manutenção do veículo precisa estar em dia. “Todos os componentes - bateria, motor de partida, ignição, carburador, afogador, filtro de combustível e, principalmente, o sistema de partida a frio - devem estar em ordem. Por isso, é bom checá-los antes do inverno”, afirma ele.

O instrutor justifica a preocupação com tantos equipamentos. “Em baixas temperatuas, a bateria possui tendência de perder carga. No sistema de ignição, velas e cabos, se estiverrem interrompidos ou desgastados, dificultam o funcionamento do motor. Já o filtro de combustível, se não estiver em pleno funcionamento, dificulta a partida e o rendimento do veículo”, diz Lourival.

Entretanto, ele acrescenta que até a forma de se efetuar a partida a frio nos carros a álcool dotados de carburador é decisiva. “Antes de ligar o veículo, o ideal é dar entre seis e oito bombadas no acelerador e puxar o afogador. Aí sim deve-se dar a partida, mas sem acelerar. É uma maneira de enriquecer a mistura com o álcool e auxiliar a injeção de gasolina”, detalha o instrutor.

Os injetados

Já quem tem automóveis mais modernos raramente deve ter esquentado a cabeça na hora de sair da garagem com eles de manhã. Isso porque os sistemas de injeção eletrônica de combustível, adotados nos veículos a partir do final da década de 80 - o pioneiro a recebê-lo, em 1989, foi o Volkswagen Gol -, acabaram com o “drama” da partida a frio nos carros a álcool e aposentaram o “velho” carburador.

Lourival explica que, com a ajuda da eletrônica, o sistema calcula exatamente a quantidade de combustível a ser injetada e se deve ou não ser adicionada gasolina à mistura. “Até 20º C ele adiciona gasolina juntamente com o álcool para facilitar a partida”, afirma ele.

Já no carburador, acrescenta o instrutor do Senai, todo este processo é feito mecânicamente e eletricamente. “Por isso, ele não é um componente tão preciso quanto a injeção eletrônica e faz-se necessário o uso paralelo do afogador para enriquecer a mistura”, considera Lourival.

Mas os automóveis injetados a álcool também não estão livres de sofrerem problemas nas partidas a frio. Os mais comuns são causados por sujeira no sistema de ignição e avarias no sensor da injeção. “Daí a necessidade de se efetuar revisões periódicas nos filtros, velas, cabos de vela e no sistema de injeção de gasolina da partida a frio”, recomenda ele.

E é justamente para este último componente que o instrutor do Senai pede atenção especial. Como a injeção de gasolina em carros a álcool é utilizada normalmente em dias mais frios, sendo mais comum no inverno, ela permanece inativa por longos períodos.

“Desta forma a gasolina existente ali se deteriora e forma uma goma no reservatório, impedindo a injeção do combustível. Por isso é recomendável, logo no início do inverno, efetuar uma limpeza no mesmo e adicionar uma nova gasolina. Assim o dono do carro ficará tranquilo ao longo da estação mais fria”, conclui ele.

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Bom exemplo

O mantenedor de equipamentos Manoel Paulo de Freitas, que há 12 anos mora em Bauru, é um bom exemplo da importância da manutenção preventiva para os carros a álcool. Proprietário de um Monza 1988 carburado, adquirido há aproximadamente um ano, Manoel ressalta nunca ter enfrentado problemas nas partidas a frio com seu carro.

Para conquistar essa proeza, ele segue à risca a “cartilha” do bom dono de um automóvel movido a etanol. Ele efetua checagens semestrais em velas, cabos de vela e no carburador, além de todo sistema elétrico. “Essa é a principal receita para quem não quer esquentar a cabeça nas manhãs frias”, considera ele.

Outro conselho de Manoel para quem também tem um carro carburado a álcool é analisar o manual do proprietário. Ele conta que, após realizar leitura atenta, descobriu para seu modelo a forma de partida ideal. “Lá dizia que, antes de ligá-lo, não era recomendável recorrer ao acelerador, mas sim acionar o afogador. Passei a adotar esse recurso e não tive dores de cabeça nas partidas a frio”, revela o mantenedor.

O reservatório de gasolina também merece cuidado, conforme Manoel. “Além de nunca deixar faltar combustível, ele deve ser checado a fim de verificar eventuais rachaduras ou vazamentos”, alerta Manoel.