08 de julho de 2026
Geral

'Aeaps vai combater a pilantropia'

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 8 min

Desde o dia 13 de maio, a Associação das Entidades de Assistência e Promoção Social de Bauru (Aeaps) tem um novo presidente. O ferroviário aposentado Paulo Sérgio Canalli assume o cargo com a proposta de combater o que ele chama de “pilantropia”, ou seja, as entidades fantasmas que pedem contribuições sem estarem cadastradas para isso.

Ele pretende, também, criar uma sede própria para a associação, que reúne 61 entidades. “A gente sonha em alugar uma sala ou uma casinha simples”, revela.

Canalli, que também é o presidente da Creche e Berçário São Francisco de Assis, pretende unir os dirigentes assistenciais da cidade e criar parcerias com instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e as universidades.

Outra reivindicação é isentar as entidades do pagamento de tarifas públicas, como água e energia elétrica. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao JC.

Jornal da Cidade - Quais são as principais metas do senhor à frente da associação? Paulo Sérgio Canalli - A única forma das entidades terem mais força nas suas reivindicações é se elas estiverem unidas. Este é o principal ponto que vamos trabalhar. Hoje, cada uma luta arduamente para manter-se organizada e com condições de sobrevivência, mas por conta disso, não sobra tempo para se dedicarem à associação.

JC - E como conseguir essa união? Canalli - Nosso primeiro trabalho está sendo visitar todas as entidades assistenciais, explicando a elas o nosso projeto. A receptividade tem sido excelente. Todas têm problemas e eles só serão solucionados se a associação propiciar uma assessoria.

JC - Como a associação pode prestar esse tipo de serviço? Canalli - Nós estamos buscando parceiros. O primeiro que respondeu positivamente foi a OAB. Vamos firmar um convênio e o órgão nos dará a assessoria jurídica. Isso é muito importante. Quando o dirigente assume a entidade, passa a ser responsável civil e criminalmente por ela. Você acaba se tornando uma espécie de patrão, com funcionários e obrigação de pagamento de impostos. Tem que existir uma orientação jurídica para que isso seja feito. Queremos conversar também com todas as universidades da cidade. Já fizemos um contato com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) para obter uma assessoria com psicólogos e engenheiros. Para a Instituição Toledo de Ensino (ITE), faremos a proposta de nos auxiliar com assistentes sociais. Quando se fala em crianças, precisamos tratá-las com o respeito que elas merecem. É um direito sagrado delas.

JC - O senhor defende a isenção de tarifas públicas para as entidades assistenciais. Como essa questão está sendo tratada? Canalli - Pretendemos fazer uma reunião com o prefeito e solicitar a isenção completa da tarifa de água. Hoje, temos um abatimento de 70%, mas há creches que ainda pagam um valor muito alto, entre R$ 250,00 e R$ 300,00. Outra proposta é que a prefeitura assuma pelo menos uma parte da tarifa de energia elétrica.

JC - Muitas pessoas ainda têm medo de fazer uma doação, achando que esses recursos podem ser desviados. Como dar mais credibilidade às entidades? Canalli - Essa é outra das nossas preocupações. Cada cidadão que é procurado deveria conhecer quem ele está ajudando, se possível até visitando a entidade para constatar que a contribuição está indo realmente para os assistidos. Infelizmente, temos casos, inclusive em Bauru, de entidades que ainda nem possuem registro no Conselho Municipal de Assistência e já estão fazendo ligações para a casa dos munícipes em busca de recursos. Isso é grave e já foi denunciado ao promotor. São pessoas que, ao invés de fazer a filantropia, fazem a pilantropia.

JC - O que as entidades assistenciais podem fazer para garantir um mínimo de sustentabilidade? Canalli - Uma das nossas brigas será discutir as verbas que existem em benefício delas. O município destina, por obrigação, 25% do orçamento para a educação. O que podemos reivindicar é que, desse total, seja estipulado um valor condizente com as necessidades que temos. O grande problema das entidades está na falta de recursos financeiros. Você tem um quadro de funcionários para atender um determinado número de crianças. Uma creche com 120 assistidos, por exemplo, não pode ter menos do que nove profissionais trabalhando. Um berçário com 20 bebês precisa de outros dois, pois a responsabilidade é muito grande. Isso significa uma folha de pagamento alta.

JC - Quanto o senhor gasta em salários com a creche? Canalli - Tenho nove funcionários e gasto aproximadamente R$ 3,5 mil com a folha de pagamento. Os custos totais da creche giram em torno de R$ 6,5 mil reais. Recebo cerca de R$ 2 mil de verbas municipais e federais.

JC - E de onde vem o restante? Canalli - Vem da realização de eventos, das famosas pasteladas, de jantares e de um quadro associativo. São voluntários que colaboram mensalmente.

JC - O senhor acha que o poder público deveria bancar todos os gastos? Canalli - Acho que, no mínimo, a folha de pagamento e os seus encargos poderiam ser pagos pelo poder público.

JC - As verbas do governo federal também deveriam ser melhor distribuídas? Canalli - Sem dúvida. O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) destina para a merenda das crianças matriculadas no ensino fundamental e na pré-escola R$ 0,13 (para cada um). Você não compra nem um pãozinho. É um valor muito aquém do necessário.

JC - A burocracia atrapalha as entidades? Canalli - Algumas estão há anos buscando o título de fins filantrópicos, que significa estar desobrigado de recolher, por exemplo, o INSS patronal. É um processo que precisa ser encaminhado para Brasília e o lado burocrático atrapalha muito. A associação já está constituindo um elo com uma assessoria de lá e que vai nos facilitar o envio e retorno dessa documentação.

JC - Os gestores sociais devem ser politizados? Canalli - É extremamente importante que o dirigente da entidade seja conhecedor dos seus direitos e obrigações. Tivemos uma reunião de diretoria e este foi um dos pontos que discutimos. Queremos realizar palestras para os dirigentes das entidades porque, quanto mais eles se especializarem, maior será a qualidade de vida que oferecida aos assistidos.

JC - O que o senhor acha dos gestores sociais que se candidatam a cargos políticos? Canalli - As pessoas de bem deveriam sempre participar da política. Quando elas se afastam, abrem espaço para que pessoas despreparadas assumam posições de extrema necessidade para a sociedade. Não tenho nada contra as candidaturas e sou até favorável, desde que o dirigente não permita que a entidade seja um trampolim político ou se transforme em um curral eleitoral.

JC - Como surgiu o interesse em ser presidente da Aeaps? Canalli - Eu assumi a creche (São Francisco de Assis) em junho de 2002, e durante as reuniões da associação fui convidado pela antiga diretoria e por outras entidades. Acabei aceitando assumir esse papel tão difícil.

JC - Antes da creche, o senhor já havia trabalhado em alguma entidade assistencial? Canalli - Fui dirigente da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Bauru durante aproximadamente um ano, só que eu me adaptava mais como voluntário. Eu gosto mais dos bastidores.

JC - O senhor sempre se interessou pelos trabalhos sociais? Canalli - Sim. Sempre que pude, eu procurei ajudar as entidades a buscar benefícios junto a empresários. Assumia a venda de rifas, fazia contatos. Acho que a solidariedade é uma das nossas obrigações.

JC - Como é o relacionamento do senhor com os pais das crianças que freqüentam a creche? Canalli - É bastante estreito. Temos atividades com eles todos os meses. Sempre há um profissional fazendo uma palestra. Já passou por aqui, por exemplo, um ginecologista, e estamos agendando encontros com um pediatra e com a Polícia Militar. É o tipo de trabalho que pretendemos levar para outras entidades assistenciais também.

JC - Durante a crise do fornecimento de carne que envolve a prefeitura, o senhor foi o único dirigente de entidade assistencial que reclamou da falta do produto. Foi a postura correta? Canalli - Acho que sim. Enquanto for o presidente da associação, pretendo tratar todos os assuntos administrativamente. Venho do movimento sindical e aprendi que primeiro você esgota todos os recursos para depois partir para a greve. No caso da associação, não vejo diferença, e com a creche foi assim também. Os problemas que nós passamos são os mesmos que todas as entidades estão passando. Vamos marcar uma reunião com o prefeito para levar até ele todas as nossas reivindicações.

JC - Naquela ocasião, o senhor afirmou que fecharia a creche se não voltasse a receber a carne. Não foi uma ameaça muito forte? Canalli - Foi uma necessidade. Quando você traz para dentro de uma creche uma criança, você acaba se responsabilizando pelo crescimento físico e intelectual dela. Isso significa que você precisa dar a alimentação necessária. A partir do momento em que você não consegue fazer isso, não pode mais ficar com essa criança. Seria até uma estupidez. Porém, eu dou essa questão como encerrada.

JC - Quanto tempo será necessário para que os projetos que o senhor está implantando surtam efeito? Canalli - O que eu disse para a nossa diretoria é que temos que dar uma resposta o mais rápido possível. Vamos trabalhar incansavelmente para que, no máximo em três meses, a gente já esteja cumprindo essa meta. Estamos buscando uma fórmula para que a associação tenha uma sede, um local para receber os representantes das entidades e que tenha a estrutura mínima para prestar uma assessoria. Com um computador, por exemplo, muitos dos ofícios e montagem dos processos poderão ser feitos nesse local pelos próprios dirigentes. Hoje, vivemos pedindo um lugar emprestado para a OAB ou outras instituições que têm espaço para nos receber.

JC - Daqui a dois anos, quando o senhor estará encerrando o mandato, a situação das entidades assistenciais de Bauru estará melhor? Canalli - Eu sonho com isso e espero que cada entidade nos procure para que possamos nos unir e buscar esse objetivo juntos.