Embora reconheça a importância e a presença da arquitetura moderna na cidade, o professor do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo (Daup) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Nilson Ghirardello destaca o estilo Art Déco como o mais relevante para Bauru.
“Obras Art Déco foram construídas em grande quantidade, de uma forma maciça. Tem muito a cara da cidade - uma das raras no Interior do Estado que não dependia exclusivamente do café”, diz o professor, que também é presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac).
Como a arquitetura está bastante atrelada à história, o professor faz uso dela para justificar sua opinião.
Ghirardello conta que, diferentemente de Jaú, Bocaina e Dois Córregos, por exemplo, Bauru não dependeu exclusivamente do café no início do século passado. A cidade se formou a partir do café, mas foi a ferrovia que deu impulso ao seu desenvolvimento.
Com o crack da bolsa de Nova Iorque, em 1929, as cidades dependentes do café entraram em decadência. Bauru, no entanto, superou a crise. Uma elite de migrantes ligada ao comércio e ao serviço assumiu as lideranças da cidade e isso refletiu na arquitetura, com o Art Déco.
O estilo, que se expandiu no centro urbano, representava modernidade, pujança, contemporaneidade e ousadia.
Ghirardello cita como exemplos o prédio da estação ferroviária da Noroeste do Brasil, localizado em frente à Praça Machado de Mello. Ele enfatiza que ainda hoje há outros edifícios remanescentes desse período na avenida Rodrigues Alves, na Batista de Carvalho e na rua 1.º de Agosto.
Anos 50
Ghirardello reconhece a importância dos exemplares modernos na cidade e cita como marcantes os prédios do Serviço Nacional do Comércio (Senac), Serviço Nacional da Aprendizagem Industrial (Senai), Esporte Clube Noroeste de Bauru e o Paço Municipal.
Ele argumenta, entretanto, que a arquitetura moderna é internacionalista e tem pouco vínculo com o local em que as obras são implantadas. “Essa arquitetura poderia estar na Índia, nos Estados Unidos, no Brasil. Ela trata o gênero humano como uma coisa só”, critica.
“Você não pode dizer que o prédio da prefeitura seja feito para Bauru. Ele poderia estar em Bauru, em Piracicaba, em Ribeirão Preto, onde quer que fosse. Não há relação muito clara com a cidade”, acrescenta.
De acordo com o professor, na época do Art Déco, boa parte das edificações não era feita por arquitetos, mas por mestres de obras locais que, por esse motivo, produziam com referências locais. Já os edifícios modernos são, na maioria, de arquitetos de fora.
Segundo Ghirardello, entre os edifícios modernos de Bauru, constam na lista de tombamento, até agora, o Paço Municipal, o edifício Brasil Portugal (localizado na esquina das avenidas Nações Unidas e Rodrigues Alves) e o prédio do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), localizado na rua Azarias Leite.
Ela acha positiva a inclusão de outros exemplares nessa lista de tombamento. “A gente tenta não só preservar aquelas coisas de 100 anos atrás. A arquitetura moderna, às vezes, corre o risco de destruição e é importante para a paisagem urbana da cidade. São obras que marcaram uma época”, expõe.