09 de julho de 2026
Articulistas

Novos e velhos marinheiros


| Tempo de leitura: 3 min

O transatlântico Brasil, metáfora usada e abusada por Lula da Silva, singra seu curso histórico com inércia inexorável. Não alterou seu rumo. Não há sinais de conversões, nem à direita, nem à esquerda. Lula argumenta, desde o início de seu governo, que o transatlântico Brasil tem de ser conduzido com extrema cautela. Ordem da ponte de comando: evitar mudanças bruscas de direção, desviar de escolhos e de tempestades. Para manter o curso firme são necessários marinheiros experientes.

Transatlântico Brasil é uma curiosa metáfora. Moderno objeto de luxo. Produto terminal de processos produtivos de complexa tecnologia. Servem ao transporte e ao lazer, com sua hierarquia de classes. Grandes empresas, que mobilizam grandes capitais, controlam suas atividades. Disputam a preferência de consumidores exigentes, abastados e de alta classe média. Atuam em mercados competitivos e altamente instáveis. Símbolo megalômano para representar o Brasil. Imagem fabricada por marqueteiros. Gera desconfianças em paranóicos...

Os conflitos entre os novos e velhos marinheiros podem atrapalhar o cruzeiro de Lula. Na torre de comando, foram convocados novos marinheiros, para gerir a empresa econômica. Gente que entende dos ditames do capital e da especulação financeira. Mantém juros altíssimos para combate da inflação. Reproduzem a ortodoxia da política econômica de Malan. Realizam com sucesso suas tarefas. Este eixo central do governo Lula provoca imenso sururu.

Não vamos falar dos protestos dos radicais. As insatisfações se acumulam em amplos setores da sociedade brasileira. Editorial, da grande imprensa, proclama sua voz de insatisfação: “O governo tarda em implementar a promessa de desenvolvimento que o elegeu. Se a manutenção da política anterior era imperativa no começo, está evidente que se esgotou. Persistir neste caminho é intolerável. Onde está o prometido projeto alternativo, tão falado na campanha?”.

Setores empresariais somam seus protestos. O desemprego atinge patamares elevados. A renda do trabalhador cai seguidamente. A atônita classe média só vê mudanças no programa do PT na TV. Duda Mendonça inventa: “A gente sente que o País tá diferente”. Lula pede paciência. Pilantras do governo chegam até a anunciar o factóide de uma tática futura, guardada a sete chaves.

Os teóricos do PT, velhos marinheiros, tentam refletir e justificar a conjuntura infeliz. Tarso Genro, rasga a fantasia: “não há uma teoria da transicão de um modelo de modernização conservadora vinculado ao capital financeiro para um modelo produtivista de crescimento acelerado e inclusão social. Temos, ao mesmo tempo, que teorizar e praticar”. Anseia por encontrar um “novo modelo de desenvolvimento, com apoio de vastos setores de toda as classe sociais, inclusive das trabalhadoras.” Como ninguém sabe como, nem onde, justificam-se todas as alianças e todas as políticas emanadas da torre de comando...

Outros, velhos marinheiros, tentam fazer a ponte entre as práticas do passado e o incerto futuro político. O senador petista do Acre, Tião Viana, líder no Senado, reflete sobre os limites políticos de seu partido. “O PT, um partido político de esquerda, nasceu sob a confluência dos signos da liberdade e da igualdade. A novidade do PT residiu em articular essas consignas - liberdade e igualdade - com um expressivo movimento social capaz de viabilizar a realização de seu programa sob as regras do regime representativo, baseado no pluralismo, no âmbito do Estado democrático de direito. Em que pese um certo apelo radical, é preciso reafirmar que o PT nunca se propôs a fazer uma revolução. A trajetória para a execução de seus objetivos é e será a de reformas, nos marcos de nossa Constituição, porque a mera vontade política de reformar o País, para ampliar a liberdade e reduzir as desigualdades, é, em si, revolucionária, dada a nossa larga tradição de exclusão política e social.” Nas lutas por reformas pífias, depositam-se as esperanças...

Petistas, velhos marinheiros, em conflito com os novos donos do poder, ficarão tomando sol no convés, na viagem de cruzeiro de Lula, olhando de longe a torre de comando. (O autor, Ulysses T. Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)