09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: Um peixe japonês


| Tempo de leitura: 3 min

Com a nossa Previdência falida, a aposentadoria vira utopia. Por isso, como bom pescador, conciliei a pintura com as minhas pescarias. Aonde eu vá pescar meus quadros irão juntos: a venda deles garante as despesas.

Certa vez, no Iate Clube do Rio Verde, onde esse rio desemboca no Rio Paraná, fui com uma ajudante, minha “netinha”, pescar e passar o Natal. Durante os cinco dias que ali ficamos, venderia alguns dos 30 quadros levados, pequenas telas de natureza morta e flores.

Na época natalina, os 150 apartamentos do Iate estavam lotados, inclusive o humorista Ari Toledo e sua família estavam hospedados no local. Através de um cano, o restaurante despejava no Rio Paraná as sobras de comida, em decorrência das lavagens de pratos, cevando assim um belo poço. De maneira que, da própria escadaria que beirava o rio, pescava-se belas piaparas e outros peixes que fervilhavam naquele local, atrás de alimentos.

Um rapaz, empregado no Iate, apelidado de “Quase Feio” devido sua aparência, auxiliava eu e minha “netinha” na exposição e venda de quadros, no saguão de entrada desse recanto e, querido por todos, tornou-se nosso auxiliar, dia e noite. Quando, no cair de uma tarde, pescávamos nas muretas do rio, um belo jaú avançou no cardume de peixes na ceva, arrancando gritos de admiração e espanto dos que viram a cena. Eu me lembrei do filme “O tubarão”. Pescar esse jaú tornou-se minha obsessão. E mãos à obra.

O “Quase Feio” cortou um bambu de quatro metros e nele amarrei uma linhada a partir da mureta do rio, soltando mais de 50 metros de linha 120, com uma piapara viva de isca. Ele também arrumou um sino, que foi preso ao bambu e serviria de alerta se o peixe fosse fisgado naquela noite.

Era Natal, uma noite quente. Houve um “Lual” nas escadarias do Iate. Os garçons não venciam os pedidos e a vodka e o martini gelados corriam soltos. Minha “netinha” não vencia fornecer aos presentes cópia da receita do “macarrãozinho de sagu”, isca especial que inventei e era sucesso. Depois da festa, fomos dormir.

Em torno de cinco horas, o sino tocou forte. Não teve quem não acordasse no Iate, a maioria brava com o barulho. Corremos à linha e verificamos ter fisgado um bote de um pescador japonês. A linhada enroscou na hélice do motor, sendo preciso arrastar o bote para o barranco e cortar com alicate a linha, que havia travado na hélice. Foi um pampeiro. Mal-humorados, esses hóspedes assistiram o episódio no qual o japonês havia sido fisgado. Resolvido o impasse, voltamos a dormir.

Na hora do almoço, desci com minha “netinha” ao restaurante e ao entrar ao local, o Ari Toledo, sentado numa mesa com a sua família, levantou-se e gritou aos presentes: “Gente! Vamos aplaudir o velho pescador e sua netinha, que conseguiram acordar a todos na madrugada e pegaram o maior peixe desta temporada: um peixe japonês!”

Todos passaram a rir e nos aplaudir... a raiva havia passado... graças ao Ari Toledo. (Altair Costa Azevedo é pintor e pescador)