08 de julho de 2026
Auto Mercado

Namorar no carro é tradição

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

Mãos nas pernas, pernas nas mãos, um volante, beijos, abraços, um câmbio, vidros embaçados, polícia chegando. Desde que o automóvel foi inventado, namorar dentro dele é uma tradição que atravessa gerações e atrai um número de admiradores impossível de se precisar.

Uma pesquisa efetuada entre motoristas americanos comprova que o automóvel ainda é um dos locais preferidos para os “amassos” dos casais, principalmente de namorados. O estudo apontou que 54% dos entrevistados costumam beijar-se no interior do veículo, enquanto 27% revelaram que a prática de sexo é o seu “passatempo” mais comum.

Mas independente para qual finalidade o veículo é utilizado, o certo é que ele é capaz até mesmo de desencadear paixões e dar impulsos decisivos no relacionamento entre as pessoas. Exemplo disso ocorreu com o casal bauruense Vitor Campos Escriptore, 19 anos, e Camila de Andrade Mateus, 20 anos.

Amigos desde 1998, eles se conheceram em um colégio. Foram três anos de amizade, que “esfriou” um pouco após a formatura de ambos. Entretanto, em um belo dia a turma da escola resolveu reunir-se novamente em um churrasco. Ao iniciar os preparativos para a festa, Vitor dirigiu-se até a residência de uma amiga comum a ambos.

Como ele era o único a ter carro, - um Fusca 1966 - Vitor ficou encarregado de providenciar as compras no mercado, local para o qual, espertamente, também convidou Camila para acompanhá-lo.

E foi justamente nesse momento que o Fusca ajudou a “balançar” o coração da jovem. “Fiquei reparando no jeitinho do Vitor e senti que estava tendo uma caidinha por ele. Logo que entrei no Fusca, fiquei impressionada, pois nunca tinha visto um tão bem cuidado e todo novinho. Com isso, percebi que ele poderia cuidar assim de mim também”, confessa Camila.

Vitor percebeu a “deixa” e resolveu investir durante o caminho de volta ao churrasco. “Comecei a jogar um 171 furado com a intenção de conversarmos melhor na festa. Só que, durante a mesma, não sei por quê, fiquei envergonhado de continuar com meu xaveco”, lembra ele.

Mas tudo mudou quando Vitor convidou alguns amigos e, evidentemente, Camila para dar um passeio com o Fusca na avenida Getúlio Vargas, um dos “points” da cidade. “No banco de trás foi um casal de namorados e um amigo, enquanto na frente fomos eu e Camila. Quando parei em um sinal na avenida Duque de Caxias, simplesmente não disse nada e dei-lhe um beijo de tirar o fôlego”, conta.

E, para sorte de Vitor, a resposta de Camila ao “atrevimento” de seu hoje namorado não poderia ter sido melhor. “Quando já estava esperando um tapa, ela olhou bem para mim e disse que tinha adorado. Aquilo foi um alívio para mim”, relembra o jovem, rindo.

Mas a paixão do casal pelo Fusca não pára por aí. Até hoje ambos lembram de cada detalhe de como se conheceram e dos primeiros “namoricos” no veículo. “Logo no primeiro dia passamos cinco horas dentro dele. Entramos nele às 2h da manhã, demos um giro pelos points e depois fomos levar o pessoal para casa. Chegamos às 7h30”, afirma ela.

No outro dia, ambos encontraram-se novamente na Getúlio Vargas e, mais uma vez, o Fusca foi decisivo para a continuidade do relacionamento, iniciado horas antes. “Os primeiros sinais de que aquilo duraria foram dados onde? Dentro do carro, é lógico”, enfatiza Camila.

Salvo pelo amor

Tamanha ligação sentimental com o Volks impediu, ainda, que o “carrinho” fosse vendido. Certa vez, Vitor teve a oportunidade para comercializar o veículo, mas uma indecisão monstruosa o abateu. “Não conseguíamos imaginar outras pessoas dentro do automóvel que ele tanto cuidou e onde tudo começou entre a gente. Depois, ele até que se conformou”, relata Camila

Vitor ressalta que pretendia adquirir um carro mais novo e confortável, só que para isso teria de se desfazer do seu “xodó”. Quando um comprador apareceu em sua residência disposto a pagar o preço que ele havia estipulado, o jovem fechou o negócio e combinou que o interessado o buscaria no dia seguinte.

Entretanto, esse foi o tempo necessário para Vitor se arrepender e desistir da transação. “Liguei para o comprador no final da tarde e disse que não iria mais vendê-lo e, felizmente, ele entendeu o sentimento que tínhamos pelo carro”, frisa ele.

Com isso, acabou sobrando para sua mãe, dona de um Corsa 1995. “Com muito esforço consegui convencê-la a desfazer-se do modelo e comprar outro que eu tinha em vista”, salienta Vitor.

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Prática arriscada

Apesar do casal Vitor e Camila adotar o automóvel como um dos locais preferidos para namorar, eles fazem questão de destacar que só se curtem em locais seguros, conhecidos e de grande movimento. “Namoramos bastante no carro, mas nunca ficamos em lugares isolados, pois não podemos facilitar para os assaltantes. Ainda temos uma vida inteira pela frente repleta de amor um pelo outro”, enfatiza Camila.

A preocupação de ambos é relevante. Somente no ano passado em Bauru, segundo J.J. Cardia, delegado titular da Delegacia de Investigações Gerais/Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (DIG/Garra), foram registrados inúmeros casos de roubos e até um estupro consumado em casais que namoravam no interior de veículos.

E, como prova de que tais ocorrências são mais comuns do que se parece, este ano mais dois casos semelhantes culminaram em furtos de objetos, dinheiro e agressões a casais, informa Cardia.

Por isso, sustenta o delegado, deve-se evitar namorar no interior de automóveis em locais ermos, principalmente em altas horas da madrugada. “Ficar nesses ambientes é correr risco de morte”, considera. Na cidade, os conhecidos “malhódromos” - ruas transversais ao Parque Vitória Régia, na avenida Getúlio Vargas, próximo ao Aeroclube, e nas cercanias do Bauru Shopping -, são “iscas” para ocorrências desagradáveis.

O delegado Marcelo Haddad, titular do 3º Distrito Policial de Bauru, concorda com o raciocínio de Cardia. Ele acrescenta, ainda, que tais locais são os preferidos pelos ladrões, em razão das vítimas permanecerem distraídas no interior dos automóveis.

Segundo Haddad, não se deve namorar nem nas ruas defronte às residências, pois além de roubar o casal, o criminoso poderá usá-lo como escudo para ingressar no interior das casas. “É melhor entrar na casa, principalmente de madrugada”, afirma ele.

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Lição aprendida

O casal bauruense Sandra Mara Volpato, 26 anos, e Kléber Amorim Gotzo, 24 anos, namoravam freqüentemente no interior de automóveis, quase sempre em frente à residência de Sandra. “Aproveitava que ia levá-la até em casa e permanecíamos no carro conversando um bom tempo. Sabíamos que era perigoso e tínhamos receio, mas acabávamos ficando por lá”, conta Kléber.

Entretanto, o pensamento de ambos mudou radicalmente após um amigo, há cerca de um ano, passar por uma situação terrível e quase ter sido morto. “Ele estava com a namorada no veículo e, de repente, uma pessoa aproximou-se deles armada com uma escopeta. Ele tentou arrancar e o bandido atirou, ferindo-o no braço, onde tem até hoje chumbinhos da bala”, conta Kléber.

Desse dia em diante ele, que é representante comercial, e Sandra, auxiliar de escritório, nunca mais se aventuraram em namoros no interior de carros. “A gente se assustou com o episódio, que nos serviu como uma lição, pois nunca achamos que poderia ocorrer conosco ou com algum colega”, enfatiza Sandra.

Por isso, apesar do automóvel ser um dos principais meios para as saídas e passeios nos fins de semana, eles estão mais precavidos. “Quando queremos ficar dentro do carro, procuramos locais públicos e sempre com muitas pessoas próximas”, garante ela.