07 de julho de 2026
Auto Mercado

Com ele é só sorrisos

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

Bastam poucos segundos de conversa para perceber que com ele não tem tristeza. E não se poderia esperar outro comportamento de Arnaldo Luiz dos Santos, mais conhecido como “Sorriso”.

Motorista de ônibus há 15 anos, “Sorriso” contagia qualquer um com seu extremo bom-humor e alegria de viver. Uma das razões para estar sempre de bem com a vida é estar na profissão que sempre sonhou em abraçar desde a infância, quando morava em uma fazenda situada entre os municípios de Agudos (13 quilômetros a Sudeste de Bauru) e Domélia (60 quilômetros ao Sul de Bauru).

Na época, há mais de 20 anos, o pequeno Arnaldo trabalhava ajudando o seu pai na propriedade. Uma de suas principais tarefas era transportar madeira em uma carroça puxada por meia dúzia de burros, que utilizava o caminho das antigas jardineiras, o único transporte disponível para a localidade do qual “Sorriso” já nutria verdadeiro fascínio.

Por isso, mesmo montado em uma charrete, ele sentia-se ao volante de um ônibus.

“Era como se estivesse dirigindo um deles”, conta Arnaldo, com o sempre presente sorriso no rosto. Tanto gosto por um veículo também logo o fez querer tirar a carteira de habilitação para carros e caminhões, missão nada fácil. “Tinha de andar 18 quilômetros a pé para fazer os testes em Agudos”, conta Arnaldo.

Já com 18 anos, teve de tomar uma das mais difíceis decisões de sua vida: deixar o aconchego familiar em troca de um emprego de ajudante geral em um estabelecimento de materiais de construção em Agudos. “Não foi fácil, pois cheguei a dormir em banco de praça, porque não tinha dinheiro. Mas precisava demais do serviço”, relembra ele.

Apesar das dificuldades, “Sorriso” nunca desistiu do seu desejo de dirigir. Nem que para isso tivesse de “torcer” para algum colega de trabalho, especialmente o motorista do caminhão, ficar doente. “É até pecado, mas confesso que cheguei a pensar isso só para pegar o caminhão”, afirma Arnaldo. “Todo mundo naquela firma ficava doente, menos o condutor do bruto”, brinca.

Até que um dia a sorte sorriu para “Sorriso”. O motorista do caminhão mudou de emprego e abriu a possibilidade para Arnaldo conquistar a vaga. Entretanto, envergonhado em pedir o “cargo” ao patrão, resolveu esperar. Só que um cliente bravo com a loja que ainda não lhe havia entregue a areia encomendada mudaria os rumos da história.

A pressa do estabelecimento em querer atender a solicitação do freguês e a falta de um motorista eram tudo o que “Sorriso” pedia, que tomou coragem e se ofereceu para o serviço. Mais do que depressa, montou no caminhão e levou a areia até o local combinado com o cliente.

Só que como o apressado come cru, conforme diz o ditado, Arnaldo não percebeu que havia conduzido uma carga errada. “O rapaz queria areia fina e eu, ansioso, levei a grossa. Como castigo, me fizeram carregar o caminhão novamente na base da pá. Fiz isso até contente, pois já estava com o caminhão”, lembra ele, rindo.

Em Bauru

Apesar de ter realizado um de seus sonhos em Agudos, foi em Bauru que “Sorriso” realmente realizou-se profissionalmente e pessoalmente. Quando mudou-se para a cidade, na década de 70, Arnaldo possuía três objetivos: conhecer o município, que ele sempre admirou pelo seu porte, arrumar um emprego, obviamente de motorista de ônibus, e tornar-se conhecido por muitas pessoas.

Foram quatro longos anos, período em que “Sorriso” atuou em outra loja de materiais de construção, sempre alimentando a esperança de trabalhar no comando de um ônibus. “Quando via um deles passar em frente à empresa, falava aos colegas da firma que um dia iria estar conduzindo um”, conta ele.

E o dia finalmente chegou. Após efetuar um teste para a função em uma das empresas de transporte coletivo da cidade, “Sorriso” foi aprovado.

Era o início de uma nova carreira para uma pessoa de origem extremamente humilde, que mesmo diante das dificuldades nunca desistiu de lutar por aquilo que desejava.

“Nem dormi de tanta ansiedade, pois imagine o que representava para mim vir do mato onde morava para correr atrás de um sonho. Nem que eu trabalhasse dois dias em um ônibus já estaria realizado”, relata Arnado, visivelmente emocionado.

No outro dia, a “estréia” na profissão ocorreu, coincidentemente, na mesma linha que circulava em frente à residência de Arnaldo em Bauru, a do Jardim Ferraz. Como era de se esperar, o episódio o marcou para sempre. “Tanto que não esqueço até hoje do ônibus, o 5020, em que dirigi pela primeira vez. Ele é o meu xodó até hoje”, comenta “Sorriso”.

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Complicações e apuros

Apesar de todo seu bom humor, carisma e experiência como motorista, “Sorriso” ressalta ser complicado circular pelo trânsito bauruense. Por isso, ele sustenta que a principal receita para quem pretende exercer a profissão é gostar do que faz. “Além disso, é preciso atenção constante e dirigir, preferencialmente, sempre na defensiva e imaginando o que pode ocorrer quarteirões à frente”, ensina ele.

Só assim, destaca Arnaldo, é possível escapar da falta de educação e cortesia do trânsito bauruense. “Os motociclistas são impacientes e se enfiam em qualquer brecha. Quando paramos em um ponto e damos seta para sair, temos de esperar até o último carro passar para seguirmos, pois ninguém dá passagem”, exemplifica.

Os pedestres também colaboram para atrapalhar os motoristas de ônibus. “Muitas vezes o sinal está verde para os ônibus e eles continuam atravessando”, frisa Arnaldo. Mesmo assim, ele não perde a paciência e o sorriso, nem com os passageiros que ele classifica como “malas”. “São aqueles que, sem saber do horário do ônibus, reclamam que está atrasado”, explica ele.

Nem os apuros pelos quais já passou foram suficientes para tirá-lo do sério. Um deles foi um assalto dentro do ônibus, que ele e o cobrador sofreram recentemente. “Foi o primeiro e único até agora nesses 15 anos. No início, pensei até que fosse brincadeira, pois conhecia a pessoa que praticava o crime”, conta.

O outro, mais engraçado, ocorreu por problemas intestinais, que Arnaldo considera a maior dificuldade que ele enfrentou até hoje. “Imagine o que é descer toda a avenida Rodrigues Alves com dor de barriga. Não via a hora de chegar ao ponto final, mas tudo colaborava para me atrasar, pois peguei catador de papel e carroças pela frente”, lembra ele.

Mas qual o segredo para tanto bom-humor? Segundo Arnaldo, é só seguir um ditado: “Meu pai sempre dizia que o melhor lenço para secar uma lágrima é um sorriso.”

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Perfil

Nome Arnaldo Luiz dos Santos

Idade 39 anos

Hobby Dirigir

Cores preferidas Vermelho e branco

Time do coração Santos

Lugar bonito para passear Bosque municipal

Carro dos sonhos

“O Gol quadradinho. Se tivesse um dele não largaria dele.”

Quem você nunca levaria como passageiro em seu ônibus?

“Não deixaria de levar ninguém, pois é um direito de todo mundo.”

E quem você faria questão de levar?

“Os passageiros.”

O que mais lhe irrita no trânsito bauruense?

“Os buracos.”

Que nota você daria aos motoristas de Bauru?

“Nove. Com tantos buracos, era para acontecer acidentes um após o outro. O índice é até baixo pelas imprudências que se cometem.”