Para a coordenadora pedagógica de Projetos Sociais da Universidade do Sagrado Coração (USC), Maria Aparecida Corazza, a falta de interesse é o principal fator que faz com que muitos adultos continuem sem saber ler ou escrever. “A cidade oferece uma estrutura boa para que eles possam freqüentar a escola”, afirma.
Ela conta que durante cinco anos trabalhou diretamente na educação de adultos no munícipio e pôde presenciar uma realidade interessante. “Antes do início do curso, nós batíamos de casa em casa para convocar os alunos. Depois de um tempo, víamos que os que continuavam freqüentando as aulas eram os mesmos que iam espontaneamente desde o começo. Os demais desistiam”, revela.
A pedagoga participa desde 1997 do Programa Comunidade Solidária, criado pelo governo federal para formar professores nas regiões mais carentes do País. Segundo ela, existe um abismo entre a situação do ensino em São Paulo e nas outras regiões. “Atendíamos 14 municípios das regiões Norte e Nordeste, alguns com 40% de analfabetos. Se formos fazer uma comparação, os 5,2% de Bauru são um paraíso”, diz.
Corazza acredita que o perfil do analfabeto em Bauru também é diferente em relação a outras regiões do País. “Não tenho nenhum estudo exato, mas pela observação notamos que aqui na cidade o índice é motivado pelo migrante. São pessoas que até já tiveram acesso à escola, mas depois se mudaram e abandonaram”, declara.
Marilene Franco de Souza, diretora da Secretaria Municipal da Educação concorda. “Realmente, a maioria é de migrantes, principalmente do Norte e Nordeste”, afirma.
Um exemplo disso é o baiano Ezequiel dos Santos, de 21 anos, que está freqüentando uma escola pela primeira vez. “Vim para Bauru em busca de emprego. Na Bahia, minha família era pobre e eu não podia estudar. O jovem deve procurar o estudo para evitar as drogas e a bandidagem”, opina.
Na semana passada, a Secretaria de Estado da Educação lançou o Programa de Alfabetização e Inclusão (PAI), que visa atender jovens e adultos. O trabalho será desenvolvido em parceria com instituições privadas de ensino superior. Na região, a USC e a Faculdade de Agudos já aderiram ao projeto. As aulas devem começar no segundo semestre deste ano.
Serviço
A prefeitura informa que as inscrições para a educação de jovens e adultos também estão abertas. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 235-1246, ou na rua Antônio Alves, 12-83.
Números
A pesquisa do Inep, que foi feita em 5.507 municípios brasileiros, traz números detalhados sobre o analfabetismo. Em Bauru, por exemplo, as mulheres que não sabem ler ou escrever são maioria, 6,3%, contra 4,1% dos homens.
A zona rural ainda concentra o maior número de iletrados, 13,2%. Na zona urbana, são 5,1%. Em termos de rendimento, a faixa dos que ganham até um salário mínimo representa 16% dos analfabetos, contra 1,6% dos que ganham acima de 10 salários mínimos.
Já entre os alunos matriculados em escolas, 97,14% dos que têm de 7 a 14 anos freqüentam regularmente as aulas. Já entre os estudantes com mais de 22 anos, esse índice despenca para 5,6%. O estudo revela ainda que o bauruense conclui, em média, 7,78 séries.