Voltar à cadeia, no papel de visitante, dois anos depois de ter estado preso no local, não foi um prazer para João (nome fictício). Preso quatro vezes por tráfico de entorpecentes, ele emocionou-se ao visitar a cadeia já vazia na semana passada. “Daqui só tenho lembranças amargas,” desabafa.
Com lágrimas nos olhos, João percorreu os corredores e foi até a cela de número 7, onde se “hospedou” pela última vez. “O clima daqui é pesado. Esse prédio está impregnado de energias negativas”, sentencia.
Para ele, só mesmo quem já passou pela cadeia sabe o que é perder a liberdade. “Não tem explicação, mas quando a porta se fecha e você sabe que não pode sair quando quiser, dá desespero”, conta.
O desespero pega todo preso, sem exceção garante João. “Quantas vezes nós tivemos que socorrer companheiros que iam se enforcar com a tereza (corda confeccionada com lençóis)”, lembra.
A consciência cobra. É a pior sentença. “Dois momentos marcam a vida de uma pessoa que vai presa: quando ela cai em si que perdeu a liberdade e se arrepende do crime que cometeu e quando seu crime vai ser julgado pelos homens. Os dias que antecedem o julgamento são de muita tensão”, opina.
O relacionamento interpessoal entre os presos é uma lição, na opinião de João. “Obedece uma hierarquia. O serviço é dividido entre os ocupantes da cela e respeita uma escala. Todas às vezes que um preso sai ou um novo entra, o serviço é mudado”, relembra.
A organização de cada cela depende de seus habitantes, de acordo com João. “Em todas é preciso tirar os sapatos e pedir licença para entrar e para sentar. Se o cara é principiante, entra sem pedir licença e pode ser castigado”, lembra.
A higiene da cela e do “boi” (privada) começa cedo, por volta das 5h, para que todos tenham oportunidade de usar o banheiro antes do banho de sol. “Para o banho também há fila. A “praia” (o meio da cela) é o local usado para a meditação. É usado para o cara relaxar”, diz.
Na opinião do ex-presidiário, os pais deveriam levar seus filhos adolescentes para visitar a cadeia. “Eles iam ver de perto a situação em que vivem os presos. Talvez eles pensassem melhor antes de entrar para o mundo do crime”, filosofa.
Na cadeia não há homem que não se arrependa e não chore, de acordo com João “O xadrez é como um confissionário. Você confessa para você mesmo e para Deus tudo o que fez. Pede perdão e quer ser perdoado de imediato para sair do presídio o mais rápido possível”, frisa.
João ressalta que inúmeras vezes ouviu e viu presos que tinham pesadelos noturnos e em seguida suavam de medo que a alma de quem ele matou viesse mexer com ele. “O homem chorava. Ele via a mulher dele que ele havia matado”, conta.
O ex-detento lembra que a insônia dos presos cria seus próprios monstros. “Eu nunca vi nada, mas várias vezes ouvi ruídos estranhos. Os presos mais antigos diziam que eram almas penadas. Presos que morreram e continuaram com a alma presa. Havia detentos que dizia que via os espírito vagando”, ressalta.
A noite na cadeia é um verdadeiro purgatório. “As grades não têm vidro e os presos penduravam lençóis e cobertores para conter o vento. A pouca luz que vinha de fora batia nos lençóis criava figuras imaginárias que perturbavam a gente. O vento frio, o silêncio e a solidão formavam um quadro macabro”, relembra.
João se emociona ao dizer como era o dia-a-dia na prisão. “Às 5h da manhã o encarregado de ralar o “boi”, ou seja de lavar o banheiro, acordava e fazia a sua obrigação. Em seguida, o preso que ia fazer o café acordava e ia para cozinha. O outro ia varrendo o chão e outro, lavando a louça”, conta.
O preso mais antigo da cela deixava de fazer as tarefas do dia-a-dia quando a população carcerária crescia. “Não tinha serviço para ele. Ele ficava aposentado até que algum dos presos fosse embora. Só então ele voltava para o rodízio”, afirma.
A lavagem de roupa, no banheiro, era outra obrigação que despendia tempo e dedicação. “Um plástico era estendido no chão do banheiro para a lavagem das roupas. Naquele período nenhum preso podia usar o “boi”. O plástico protegia a contaminação. O chão da cadeia tinha algo que dava micose. Eu mesmo peguei micose no corpo todo”, lembra-se.