Às vésperas de completar os primeiros seis meses de governo, já é possível projetar-se, em linhas gerais, o que esperar da administração petista no seu primeiro ano. Se algum jornalista político perguntasse a FHC o que ele mudaria no governo Lula, a resposta, evidentemente entremeada de frases feitas para agradar aos tucanos, seria nada. Se outro jornalista, da área de economia, pedisse a Pedro Malan e a Armínio Fraga suas opiniões sobre os respectivos sucessores, Antônio Palocci e Henrique Meirelles, só ouviria elogios a ambos.
Ora, a pergunta que se impõe, em razão do raciocínio acima, é a seguinte: Quem governa o País: Lula, Palocci e Meirelles ou FHC, Malan e Fraga? É que a política, às vezes, surpreende até mesmo os mais experientes e atentos analistas. Se você, leitor, votou em José Serra para questionar, no âmbito tucano, o ex-presidente FHC, errou. Se, por outro lado, você, eleitor histórico do PT, deu seu voto a Lula para derrotar a social-democracia tucana, também errou.
O núcleo do poder, pelo menos até agora, mudou quanto às pessoas e não quanto às ações mais profundas, fazendo crer que há um “terceiro mandato” em curso. Esse fato ainda não foi entendido, em toda a sua extensão, nem por tucanos nem por petistas, e expõe com muita clareza que as diferenças ideológicas e programáticas entre PT e PSDB não existem. Quando os tucanos eram governo, os petistas tinham a impressão de que sua agremiação política era substancialmente diversa. Contribuiu para isso a cerrada oposição que eles faziam, na época, ao governo FHC.
Agora no governo, a maioria dos petistas descobriu uma insuspeitada e, para seus eleitores e simpatizantes, até mesmo estranha, afinidade com os tucanos. A questão é relativamente simples: como, na matemática, menos com menos dá mais, em política, a oposição da oposição vira situação. Explico melhor: PSDB, PT e, em menor grau o PMDB, opuseram-se aos governos militares. No governo Sarney, de transição, o PMDB teve de deixar a oposição. Com isso, beneficiaram-se, principalmente na gestão Itamar Franco, que assumiu em lugar de Collor, petistas e tucanos. Quando estes, com FHC, chegaram ao poder, em 1995, graças ao sucesso do Plano Real, a única saída do PT foi fazer oposição aos tucanos, mas sem propor qualquer programa de governo alternativo.
Hoje, a convergência de metas dos dois partidos é de tal ordem que o PT se propõe a fazer exatamente aquilo que FHC não conseguiu, ou seja, as reformas previdenciária, política e do Judiciário. Em relação à tributária, Lula e os estrategistas palacianos seguiram à risca a receita de FHC: arrecadar mais e dividir a receita entre os interessados, ou seja, União, Estados e municípios. Nada para o setor produtivo, nem para a classe média e os assalariados. No máximo, algumas medidas tópicas.
Bem, mas, afinal, quem fará oposição ao governo Lula? O PFL, o PL, atual aliado do PT; e, eventualmente, dissidentes petistas, tucanos e peemedebistas. PSDB e PMDB jamais farão oposição em bloco ao PT. Mas, em contrapartida, os primeiros lances do jogo oposicionista já foram dados: os ataques do PFL às invasões do MST e o “fogo amigo” do vice-presidente, senador José Alencar, que criticou a manutenção do juro básico em 26,5%.
Até mesmo o ministro-chefe da Casa Civil, deputado José Dirceu, principal estrategista político do Planalto, teve de reconhecer, embora a contragosto, em recente evento realizado em São Paulo, que não é possível retomar o crescimento da economia com os juros no atual patamar e o superávit primário exigido pelo FMI, já atingido e até ultrapassado, de 4,5% do PIB.
A cautela do governo é compreensível, mas o que preocupa o setor produtivo do País é a demora do núcleo do poder em dar sinais claros de que de fato quer reativar a economia. Se não pode baixar já o juro básico, o governo deveria, pelo menos, diminuir a taxa de juros de longo prazo, cobrada pelo BNDES em seus financiamentos, e divulgar com antecedência o programa de encomendas de bens, serviços e equipamentos do setor público.
Ou será que os economistas do PT esqueceram as lições de Keynes? A conclusão que se pode tirar dos primeiros seis meses de governo Lula não é animadora. Ao que tudo indica, o PT se dará por satisfeito com a aprovação de duas reformas (da previdência e tributária) e com seguidos superávits na balança comercial. E isso é tudo o que FHC queria se tivesse um terceiro mandato. (O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil)