A comédia teatral “A Herança”, que será exibida hoje à noite no Grêmio Recreativo dos Energéticos (Greb), retrata as relações humanas e temas sociais, enfocando valores como amor, respeito e união familiar. Nos papéis de pai, mãe, filha, advogado, entre outros, os atores dão vida aos personagens através de emoções e movimentos.
Esse roteiro poderia ser considerado comum, se não fosse por um grande diferencial: os atores e atrizes da peça são oito deficientes visuais. Eles têm entre 24 e 78 anos e integram o grupo teatral “Nova Vida”, uma das atividades culturais desenvolvida pelo Lar Escola Santa Luzia para Cegos, em Bauru.
Existente há dez anos, o grupo já realizou outros cinco espetáculos teatrais se apresentando em Bauru e região. No ano passado, o “Nova Vida” participou da Mostra de Teatro Amador de Pederneiras, ganhando três prêmios.
Apesar da deficiência visual, todos os atores realizam dez cenas de movimento durante a peça, que tem duração de 50 minutos. A diretora do grupo, Edi Yamamoto, explica para garantir uma boa atuação, os atores passam por um período intenso de seis meses ensaiando o roteiro, que é gravado em uma fita cassete e entregue para cada integrante da peça.
“Como os atores não têm a memória visual, precisam memorizar o espaço que eles estão, para poderem se locomover”, aponta Yamamoto. Ela observa que a performance dos deficientes no palco é perfeitamente normal, citando como exemplo uma cena que traduz o momento de flerte entre os personagens.
“Tem uma cena romântica entre a filha do herdeiro, Chiquinha, e o motorista da família. Quando eles são apresentados, ela sai da piscina, derruba o copo que tem na mão e ‘olha’ de forma muito apaixonada para ele. O momento tem um ‘tchan’ especial”, ressalta a diretora teatral.
Escrita pela psicóloga Ercira Bragatto, a história retrata a vida de uma família que recebeu uma herança e a partir daí, passa a sofrer várias transformações. “Trabalhamos a crise do ter e do ser, resgatando valores sociais”, diz Yamamoto, que trabalha com uma equipe de apoio formada por voluntários.
Auto-estima
Yamamoto relata que o grupo “Nova Vida” contribui para aumentar a confiança e a auto-estima dos deficientes visuais. A diretora teatral, que também é psicóloga, aponta que o objetivo é promover a inserção social do deficiente, oferecendo novas perspectivas e oportunidades. “A idéia é mostrar que, apesar da limitação visual, esses atores são capazes de representar no palco”.
Participando há três anos do grupo teatral, a deficiente visual Janaína Cristian de Oliveira revela que a atuação nos palcos ajudou-a a superar a tristeza quando soube que havia perdido a visão. “Quando eu me tornei deficiente, há cerca de cinco anos, achei que nada mais tinha graça para mim. Mas o teatro me ajudou muito”, diz a atriz de 31 anos.
As cenas de movimento nos palcos também são um fator de dificuldade apontado pelo deficiente José Araújo Mello, que interpreta o papel de advogado no espetáculo. “Antes de começar a apresentação, precisamos contar quantos passos existem até o palco”.
Aos 78 anos, Mello integra o grupo teatral desde sua fundação, em 1993. Ele revela que a atuação no teatro contribuiu para melhorar sua relação com as pessoas. “Gosto muito do teatro, pois senti uma melhora na forma de lidar com a vida, antes levava tudo muito a sério, agora entendo melhor as coisas”, conta Mello.
O ator salienta que a peça traz diversos momentos divertidos. Ao final da comédia, os atores dançam forró ao som de uma sanfona tocada por um deficiente visual, que também atua na peça. “Eu eu caio no forró, viro um pião”, brinca Mello.
• Serviço
Peça “A Herança” hoje, às 20h, no Greb. R. Benedito Eleutério, 2-8, V. Pacífico. Informações: (14) 236-1977.