Aconteceu numa cidade do Alto Xingu, próximo do Equador (trópico). A festança fora organizada. Todos foram convidados para a sessão. Católicos, protestantes, espíritas, adeptos ou fanáticos da CUT, enfim, todos que desejassem uma solução para o insolúvel problema local, que se tornara crônico há uma década. Os caciques mais conhecidos, associações, clubes, etc., ficaram de fora, dando palpites pelos veículos de que dispunham, defendendo o indefensável. Iniciaram-se os trabalhos com o Presidente assumindo a sessão e convidando a todos, caboclos, exus, paes de santo, videntes, sensitivos e quejandas para conhecerem da gravidade dos fatos e invocar a proteção divina para o que se desenrolasse naquela sessão, já que, em suas ideologias sublinhadas com o passar dos tempos, nos fluxos e refluxos provocados pelos “patos” e “lagoas”, poderia surgir a salvação da cidade.
O mercado era propício, a maré, influenciada pela lua cheia (todo mundo se encheu), indicava revolução dos astros, o que poderia conduzi-los aos páramos da glória, ou ao infortúnio dos cárceres. Invocada assim a proteção divina (afinal Deus é brasileiro), todos circunspectos e meditabundos, foi declarada pelo Presidente a oração que traria, dos arcanos d’além túmulo, a gloriosa memória de antepassados para, das estepes em que se encontrassem servissem de alento e incentivo para nossos patrícios ali presentes que, a despeito do juramento de bem servir, não conseguiam, sequer, melhorar sua condição de vida (intelectual é claro), demonstrando, cada qual, paupérrima fisionomia de aidético confesso, reconhecido, diagnosticado e programado para a travessia do umbral em direção ao excelso nirvana ou melhores paragens divinas.
O ambiente era o mais exacerbado possível. Havia televisão para testemunhar, documentar e condenar os fatos a fim de transmiti-los aos ausentes o efetivo conhecimento do que houvesse ocorrido na benéfica reunião. Ouvia-se o som do caminhão da CUT convidando a todos para a paz e a tranqüilidade, já que o assunto era por demais conhecido e não restariam dúvidas a serem solucionadas, o que colocava em êxtase profundo todos os participantes, já que, notadamente, benfeitores da humanidade. Entretanto, desentendimentos existem para solapar o silêncio sepulcral e quase divino, mas, para felicidade de todos, aquele abraço soluciona a questão.
Os presentes respeitavam tudo: alguns orando quase histericamente, outros em profunda meditação, pois não sabiam se estava presente alguma entidade do além que pudesse eclodir no consciente o que jazia no subconsciente dos participantes. Parecia, realmente, uma demonstração de interesse público, de amor pelo torrão natal, de cumprimento pelo juramento de bem servir à pátria, de ajudar aquela cidade dos confins brasileiro, cujo destino caminhava para o ostracismo (exceção, claro, do setor educacional). Pairava a dúvida. E o deboche continuou num cinismo incontrolável, ora defendendo votos passados (ou futuros), ora defendendo benesses e empregos auferidos ou conchavos para o amanhã, ou silentemente aguardando o desfecho, pois do rescaldo poderiam sobrar farpas indesejáveis. Mas, afinal, entre mortos e feridos, todos se salvaram, sem sorrisos e sem lágrimas, é claro, mas prometendo voltar nos próximos dias, esperançosos, alegres e risonhos para um novo dia. (Itamir Crivelli)