09 de julho de 2026
Articulistas

Quem confia no governo?


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Vivemos uma época de tantas mudanças que ficamos aturdidos. E o pior é que só vai aumentar. O consultor e escritor americano Peter Senge pergunta: “Será que alguém espera que os próximos vinte anos sejam menos tumultuados do que os últimos vinte? Diante das mudanças esperadas em tecnologia, biologia, medicina, valores sociais, demografia, no meio ambiente e nas relações internacionais, com que tipo de mundo a humanidade poderá se deparar? Ninguém pode afirmar com certeza, mas uma coisa é razoavelmente certa: contínuos desafios irão convocar nossa capacidade coletiva para lidar com eles.”

Nós todos sentimos e reconhecemos a necessidade de mudanças. Em época de eleição só se fala em mudança. Até os que estão governando e pleiteiam a reeleição falam em mudança. Por que, então, toda essa resistência quando as mudanças são propostas? Aqui, como na França, estão fazendo greves e manifestações contra a proposta de mudança na previdência social. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi eleito para fazer mudanças, está encontrando resistência dentro do seu próprio partido, o PT, que queria o poder para mudar. A resposta pode ser encontrada na sabedoria popular. Diz o provérbio que gato escaldado tem medo de água fria. Têm sido tantas as decepções e os logros que o povo não confia mais.

Estudos mostram ser alto o número de mudanças fracassadas, tanto nas empresas como no governo. Pesquisas das consultorias Arthur D. Litle e McKinsey concluíram que cerca de dois terços de programas de mudanças acabam sendo suspensos por não produzirem os resultados esperados. Pior ainda quando os resultados sacaneiam o povo, como no caso das cadernetas de poupança do governo Fernando Collor. O fracasso de mudanças anunciadas com estardalhaço e as promessas não cumpridas geraram ceticismo e desgaste na confiança em legisladores e dirigentes, aumentando a natural resistência às mudanças. Observando as manifestações de protesto contra as reformas verificamos a presença de um maior número dos que pouco têm a ver com elas. Movimentados por sindicatos há mais servidores públicos que não serão afetados, por receberem baixos salários, e trabalhadores da iniciativa privada, que também não serão afetados, do que os de altos salários e polpudas aposentadorias (estes fazem sua defesa nos bastidores). É uma luta, inclusive, para defender direitos e privilégios de que não gozam. Por que? Porque não confiam mais nos políticos, estejam ou não no governo. Os que antes eram contra determinadas mudanças hoje são a favor e os que eram a favor, hoje são contra. A conquista da confiança é um processo lento. Começa com a sensibilização que leva ao interesse e caminha pelas provas de fidelidade. A perda da confiança, por outro lado, é rápida. Imaginemos, agora, depois de muitos e muitos anos de provas de infidelidade dos governantes para com os governados e concluiremos sobre a imensa dificuldade que o atual governo vai ter para fazer as mudanças, de que os governos anteriores desistiram. E embora o governo garanta que os direitos adquiridos serão respeitados, ninguém confia. Professores e funcionários públicos estão antecipando suas aposentadorias em massa para escapar da reforma, exatamente onde a preocupação em conter os gastos é maior. (O autor, Pedro Grava Zanotelli, é administrador e ex-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru)