10 de julho de 2026
Geral

Após 95 anos, a imigração japonesa entra em nova fase

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Passados 95 anos da chegada dos primeiros japoneses ao Brasil e à região de Bauru, há uma nova onda de imigração. Ao invés de jovens, o Brasil agora recebe idosos já aposentados no Japão, que chegam todos os anos em busca de qualidade de vida.

Embora não haja nenhum levantamento que revele os números da imigração neste começo de século 21, o Clube Nipo Brasileiro de Bauru informa que é crescente o número de idosos japoneses que se mudam para o Brasil. O mote da troca de país é a mudança de posição social.

“O custo de vida no Japão é alto e, com a aposentadoria, os idosos vivem de maneira muito simples enquanto que no Brasil passam a ter uma vida de rei”, frisa o diretor de comunicação do Nipo, Massaru Ogino.

De acordo com ele, só os aposentados de altos cargos no Japão é que recebem boa aposentadoria. “A grande maioria dos aposentados recebe um valor pequeno para os padrões deles. Este valor, recebido em ien (moeda japonesa) vale muito no Brasil. Aqui, eles vivem melhor financeiramente”, ressalta.

Com uma aposentadoria pomposa pelos padrões brasileiros, os idosos japoneses escolhem as cidades interioranas para viver, de acordo com Ogino. “A TV a cabo mostra a violência das metrópoles brasileiras e isso os assusta. Então, eles optam pela área rural no Interior”, diz.

A busca pela qualidade de vida é uma meta para os idosos japoneses, segundo o diretor de comunicação do Nipo. “São pessoas que vivem de maneira discreta e não despertam a atenção dos marginais. Eles cuidam muito da alimentação e preferem viver nos pequenos centros, onde a vida é mais calma”, afirma.

A grande diferença entre a imigração do início de 1900 para os anos 2000 é o perfil dos imigrantes. “No início, a imigração era de jovens e hoje, é de idosos, mas ambos em busca de qualidade de vida”, ressalta.

No Brasil há aproximadamente dois milhões de japoneses. Em Bauru, um levantamento feito em 1997 aponta que existem 1.500 famílias de japoneses. O primeiro contingente de imigrantes saiu do Japão a bordo do lendário navio Kassato Maru, em abril de 1908.

O responsável pela imigração era um advogado que se preocupava com a imensa expansão demográfica, de 500.00 a 1.000.000 pessoas por ano, considerando o restrito espaço territorial do Japão. Ele entendia que a solução para o problema estava na imigração e sonhava em construir um novo Japão, fora do território nipônico.

A busca por novo espaço valeu o título de “soldados da paz” aqueles que deixaram o Japão. “Os japoneses entenderam que eles saíram em benefício dos demais, por isso ficaram conhecidos como soldados da paz”, explica Ogino. De acordo com ele, os pioneiros abriram caminho para os demais, que foram chegando aos poucos.

Desde a saída dos japoneses com destino ao Brasil, em 1908, nunca o Japão foi tão atrativo como nos anos 90. “Cerca de 250 mil descendentes de japoneses deixaram o Brasil em busca de uma situação financeira melhor. A remuneração recebida pelos dekasseguis (descendente de japonês que vai ao Japão para trabalhar) representa um salário mínimo nosso por dia. Ou seja, cada dia que eles trabalham lá recebem um salário mínimo nosso”, conta Ogino.

As funções desempenhada pelos dekasseguis nem sempre são braçais, de acordo com Ogino. “A maioria dos nipônicos tem formação universitária e não se submete a trabalhar em postos de salários baixos. A mão-de-obra de lá é demais de especializada”, frisa.

A emigração brasileira para o Japão pode surtir efeitos além do financeiro, espera Ogino. “Eu acho que na parte cultural os brasileiros não aprenderão muito porque lá praticamente eles só trabalham. Mas na questão disciplina e solidariedade eles terão uma lição sem igual”, opina.

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Tradição

Os japoneses e seus descendentes que vivem em Bauru tentam manter a tradição. Anualmente, promovem a gincana Undokai, um festival de dança folclórica, e Obon Odori, um festival cultural.

Além disso, a colônia japonesa mantém um grupo de 100 alunos na escola de língua japonesa, sendo que 30% dos usuários são brasileiros.

Massaru Ogino, diretor do Clube Nipo Brasileiro de Bauru, conta que as festas japonesas eram freqüentadas somente pelos japoneses e seus descendentes.

Porém, há cerca de 20 anos, o clube abriu-se para brasileiros, como forma de preservar a cultura nipônica. “Abrimos o clube para os brasileiros porque entendemos que a cultura não pode ser restrita”, frisa.