A eficiência do Programa Fome Zero, do governo federal, foi contestada pelas assistentes sociais que participaram ontem à noite de um debate realizado pela Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE) e pelo Conselho Regional de Serviço Social (Cress) de Bauru.
Para uma das palestrantes, a professora Egli Muniz, um dos problemas do projeto é a abrangência restrita. “Ele é extremamente focalizado nos municípios mais pobres. A previsão é de que 1.038 sejam contemplados até o final de dezembro. Se ele vier para Bauru, será apenas no último ano do atual governo”, opina.
Ela também questiona a escolha dos assistidos. “O programa atende apenas os mais pobres entre os mais pobres e nós sabemos que 50% da população brasileira recebe até dois salários mínimos”, afirma.
Egli acredita que o Fome Zero apresentou erros antes mesmo de ser lançado. “O governo tinha que se aproveitar a estrutura que existia e consultar o pessoal que trabalha na área, tanto que vem fazendo alterações”, declara.
A professora lembra que existem seis programas assistenciais oferecidos pelo governo federal para as famílias mais pobres. “O problema é que eles estão pulverizados em vários ministérios. O ideal seria juntá-los. O que acontece, às vezes, é que uma mesma família recebe dois benefícios”, diz.
Para outra das palestrantes, a delegada do Cress, Antonia Boldarini Godoy, pelo menos um cadastro único deveria ser implantado. “Sem ele, fica difícil fazer um atendimento melhor”, defende.
Ela discorda da tese de que a fome é causada pelo aumento da população. “Ela é gerada por fatores como a concentração de renda, baixos salários e pouco crescimento econômico. É preciso alterar o modelo econômico”, opina.
A delegada afirma ainda que é preciso mudar a maneira como as políticas sociais são encaradas. “Elas têm que ser vistas como um direito, e não como assistencialismo”, declara.
A palestrante e presidente do Conselho Municipal da Assistência Social, Ilda Chicalé Atauri, concorda. “Se o Fome Zero continuar sendo desenvolvido da maneira que está, corre o risco de ser dominado pela solidariedade, filantropia e assistencialismo. Ele tem que sofrer alterações para que haja uma participação efetiva da sociedade civil”, diz.