A chamada ala radical do Partido dos Trabalhadores passa por momentos difíceis. Depois de se manifestarem contrariamente às reformas propostas pelo governo de seu partido, especialmente a da Previdência, o que trouxe todos os holofotes da mídia em sua direção, alguns deputados, que supostamente deveriam fazer parte da bancada governista, afrontam o Planalto.
O PT enfrenta uma grave crise interna. Isto é um fato. Depois de chegar ao governo tem enfrentado a fúria do grupo que não acredita na nova postura moderada apresentada pelo fatia hegemônica liderada por Lula e José Dirceu. Entretanto, devemos prestar atenção ao fato de que os chamados “rebeldes” poderiam ser facilmente chamados de “autênticos”, uma vez que estes não mudaram sua postura e continuam a defender as chamadas bandeiras históricas do PT, situadas à extrema esquerda do espectro político.
Porém, devemos estar atentos também a outro fato. Por que os “radicais” ou “autênticos” se calaram durante a campanha a presidencial? Entendo que sua revolta deveria ter sido esboçada quando da divulgação do texto intitulado “Carta ao Povo Brasileiro”, em meados de 2002. Naquela época, o partido mostrou claramente uma face mais moderada, por meio da apresentação de um discurso capaz de mobilizar a sociedade não petista, mostrar confiança a uma parte do eleitorado ainda não conquistada e vencer a eleição. A vitória, objetivo maior, foi conseguida, entretanto, nas bases do manifesto citado. Se os autênticos se calaram na campanha, certos de que haveria uma guinada à esquerda após a posse, tudo indica que estes estavam coniventes com uma espécie de estelionato eleitoral.
Logo, sob este prisma, não deve haver reclamação dos radicais, pois o Planalto coloca em prática exatamente o plano de governo que foi vendido para o eleitorado no último pleito. Assim, se Heloísa Helena e sua turma acreditavam que Lula estava dizendo a verdade durante a campanha, não há porque haver ranger de dentes hoje.
O enquadramento, a Comissão de Ética ou a “guilhotina” parece ser algo que deveria ser enfrentado com naturalidade pelos autênticos, uma vez que na prática esquerdista, aqueles que não concordam com a posição do partido são punidos, afastados ou expulsos. Em casos onde o regime é totalitário esquerdista, como em Cuba, alguns dissidentes acabam de maneira pior, como já vimos. Felizmente, o Brasil não é Cuba. Contudo, o enquadramento daqueles que não concordam com a direção do partido virá, pelas mãos da Comissão de Ética.
Os holofotes também são um bom motivo para os autênticos vociferarem com tamanho fervor contra as reformas propostas pelo Planalto. Políticos necessitam da mídia para aparecer (afinal, logo teremos eleições) e a ocasião para atrair a atenção da imprensa não poderia ser melhor. Assim, o PT também mostra que consegue ser oposição e governo ao mesmo tempo, algo curioso para um partido que sempre desejou demonstrar um caráter homogêneo. Assim, lembro das palavras de líder do governo, Aloízio Mercadante, quando se referiu a oposição. Disse que os hoje oposicionistas acreditam que fazer boa oposição é fazer o que o PT fazia. “Não é”, segundo ele. Bem, tudo indica que certos segmentos do PT não perderam o cacoete de oposicionistas. E isto pode ser ainda um grande problema para o Planalto. (O autor, Márcio Chalegre Coimbra, é advogado)