Ela roda para cima e para baixo em Bauru com sua Parati 92. Por isso, se tem algo em que a jovem professora Maria Inez de Souza, 21 anos, costuma ser “especialista” é em histórias e aventuras ao volante no complicado trânsito local. As mais comuns, como infelizmente não poderiam deixar de ser, envolvem o velho e surrado preconceito contra o sexo feminino à frente da direção de um automóvel.
Comprou a carta! Ê, dona Maria! Vai pilotar fogão! Tinha de ser mulher! Esses foram apenas alguns dos “elogios” que, a exemplo de outras representantes do mesmo sexo, a professora já teve o “privilégio” de ouvir durante suas andanças pelas ruas e avenidas bauruenses.
E antes que algum engraçadinho pense que ela os mereceu - nada, no entanto, justifica as zombarias -, a “professorinha” apressa-se em dizer que pagou por seu maior cuidado e atenção, característica associada às mulheres no trânsito.
Por isso, Maria Inez considera que as reações dos sexos a uma eventual “barbeiragem” são extremamente diferenciadas. “Quando são duas mulheres, o máximo que acontece é um olhar feio. O respeito é maior e a reação não é tão agressiva”, ressalta. Já quando um homem entra na parada, conforme a jovem, o preconceito acaba falando mais alto. “É aquela chuva de gentilezas”, ironiza.
Para ela, tais comportamentos podem ser explicados pelas tradições histórico-culturais brasileiras. “Nossa sociedade sempre foi patriarcal e machista, fazendo com o que o homem, mesmo estando errado, sinta-se à vontade para xingar a mulher”, enfatiza Maria Inez.
Apesar disso, a jovem entende que tal realidade já está se transformando. Segundo a professora, muitas mulheres aprenderam a reagir e a impor respeito no trânsito, deixando a passividade de lado. “Não que estejam mais agressivas. Estão apenas se defendendo e não aceitando mais caladas os desrespeitos que sofrem. Pelo menos cara feia elas já fazem”, garante ela, rindo.
Mesmo confessando que, às vezes, perde a paciência no trânsito, Maria Inez garante que jamais xingou alguém. “O máximo que faço é buzinar. Nunca me dirigi agressivamente a outra pessoa”, frisa ela.
Apesar disso, a jovem destaca ser complicado andar pelo trânsito bauruense. “É um sistema viário confuso, que concentra um grande volume de trânsito em poucas ruas do centro. Além disso, o motorista local não tem educação, pois comumente desrespeita sinais de parada obrigatória, avança sinal vermelho e deixa de sinalizar suas intenções de conversão”, salienta Maria Inez.
Quebrando tabus
Desde os 14 anos, Maria Inez não via a hora de completar a maioridade para tirar a carteira de habilitação. Nessa idade, ela já dava as primeiras arrancadas com o pai em uma caminhonete da família. Entretanto, o veto da mãe a impediu de aprender a dirigir para valer, o que só conseguiu mesmo através da auto-escola quando completou 18 “primaveras”.
Com a carta em mãos, e incomodada pelo estereótipo de que mulher ao volante era “perigo e incômodo constante”, Maria quis quebrar tal tabu. “Queria sempre correr, pois como falavam que mulher só empacava e atrapalhava o trânsito eu não pretendia me encaixar nesse perfil”, afirma ela. “Além disso, tudo era pretexto para pegar o carro, até ir na padaria da esquina”, complementa.
Só que, com o tempo, Maria Inez amadureceu suas idéias a respeito. Atualmente, além de saber diferenciar as tendências comportamentais distintas de homens - mais impetuosos - e mulheres - mais cuidadosas - ao volante, ela encara o automóvel como um meio de transporte.
“Antes usava o carro para passear. Hoje, ele é um instrumento de locomoção, do qual dependo para trabalhar, mais importante até que minha bolsa”, considera.
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Perfil
Nome Maria Inez de Souza
Idade 21 anos
Profissão Professora
Hobby Viajar
Um lugar bonito Cabo Frio e Brasília
Cor preferida Verde
Signo Leão
Time do coração Brasil
Carro dos sonhos
“Um Troller ou qualquer utilitário, pois gosto de carros grandes.”
Qual o tipo de motorista mais chato?
“O playboy. Por normalmente ter um carro bom e ser jovem, ele se sente no direito de atormentar o trânsito e, principalmente, as mulheres.”
O que mais lhe irrita no trânsito bauruense?
“As valetas altas formadas após os recapes das ruas e as pessoas indecisas ao volante.”
Quem você nunca levaria em sua Parati?
“Apesar de já ter carregado de tudo nela, até hippies, nunca daria carona para o George Bush nem qualquer outro ditador.”
E para quem você faria questão de dar carona? Mahatma Ghandi
Que nota você daria aos motoristas bauruenses?
“Zero. Apesar de me incluir entre eles, considero-os muito mal educados, imprudentes e egoístas, pois não costumam ceder passagem para ninguém.”
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Relação com os Trabies
Você sabe o que é um Trabie? Se a resposta for negativa, não se assuste. É uma pergunta difícil mesmo, menos para quem tem a resposta na ponta da língua, no caso, a “professorinha” Maria Inez de Souza.
Ela explica que Trabie era um veículo produzido na Alemanha Oriental que se tornou o símbolo do atraso tecnológico daquele país. “Era o automóvel popular e considerado o carro nacional”, detalha Maria Inez. “Ele representava as diferenças econômicas entre as Alemanhas. Enquanto andavam de Trabie na Oriental, na Ocidental o Mercedes era comum”, compara.
Por isso, ela aproveitou seus conhecimentos históricos para apelidar os carros mais antigos de Trabies. Um dos que já teve o “privilégio” de ganhar a “honrosa” alcunha foi a Variant azul de um amigo de faculdade. “Ele leva na esportiva”, garante.
Entretanto, mesmo brincando com os veículos antigos, foram estes que lhe proporcionaram uma das maiores emoções de sua vida. Ela queria de todas as formas dirigir um desses modelos, sonho que realizou em uma Brasília.
Segundo Maria Inez, foi a oportunidade de sentir o que ela denomina de “essência” do automobilismo. “Eles não têm a mesma tecnologia e potência dos carros atuais, mas você interage mais com o carro e sente que está sob seu domínio e guiando de verdade”, conclui ela.