Na semana passada, comentamos neste espaço a queda do ritmo da atividade econômica no primeiro trimestre do ano, que terminou com crescimento negativo em relação ao último trimestre de 2002. Como a economia não mostrou sinais de reação em abril e maio, criou-se a expectativa de se repetir o resultado no segundo trimestre, o que permitiria caracterizar um estado de recessão no País. Goste-se ou não, é desta forma que se convencionou classificar uma situação em que a economia apresenta dois trimestres consecutivos de crescimento negativo.
Antes mesmo que tais expectativas se realizem, eminentes dignitários do governo passado apressaram-se em “comemorar” o desgaste que isso já está produzindo no seu sucessor. Faz parte do jogo, mas mal conseguem esconder a enorme frustração pelo fato que o governo Lula não afundou, como alguns esperavam. Pelo contrário, tem desmontado, parafuso por parafuso, a armadilha inflacionária que o antecessor lhe preparou no último ano de mandato, quando permitiu uma expansão de 30% da base monetária, na inútil tentativa de eleger seu candidato à Presidência. Isso não podia deixar de produzir efeito nos preços. A inflação subiu rapidamente no segundo semestre e o governo FHC terminou com uma taxa de 13% ao ano, com impulso para crescer para 17% nos primeiros meses do novo governo, como de fato aconteceu. Foi esta pressão inflacionária que obrigou o governo Lula a elevar duas vezes a taxa de juro básica para conter a explosão de preços que aleijaria sua política econômica no nascedouro. A inflação passou pelo máximo e agora apresenta toda a tendência de queda, com a firme perspectiva de terminar o ano com uma taxa de 11% ou 12%. As projeções do mercado já convergem para uma inflação anual de 8,5%, em maio do ano que vem. O comportamento recente dos índices da inflação respalda essa expectativa e, certamente, influenciou a decisão do Copom na última quarta-feira de reduzir em meio ponto a taxa Selic, de 26,5% para 26% ao ano.
A queda do nível da atividade econômica era inevitável, mas nesse momento não há mais razão para retardar o processo de redução dos juros, dando o sinal para a retomada dos investimentos no setor privado e tomando as medidas que estimulem a produção e o emprego. Agora, a autoridade monetária já pode corrigir o erro que cometeu no início do ano, quando fixou a meta de 8,5% de inflação para dezembro. Se ela pode ser atingida em maio, não há nenhum motivo para continuar preso ao calendário gregoriano, quando está claro que essa insistência só serviria para entronizar o processo recessivo que o Brasil não tem necessidade de suportar. (O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP - E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br)