09 de julho de 2026
Bairros

Periferia também carece de afeto

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 2 min

Necessidades materiais e estruturais de base não são os únicos problemas da população de bairros da periferia. Por trás da “falta de tudo”, como eles mesmos dizem, falta também atenção.

As carências psicológicas são freqüentes em comunidades pobres. Psicólogos explicam que as privações materiais geralmente vêm acompanhadas de carência de participação.

De acordo com o psicólogo e professor Celso Zonta, a dificuldade de acesso à educação, à cultura e aos meios de comunicação, entre outras coisas, dificulta o exercício da cidadania. O subproduto desse processo é o que ele chama de exclusão psíquica.

Visitantes não têm dificuldades em perceber essa necessidade de atenção. A professora Jane Brito de Jesus, do Departamento de Comunicação Social da Universidade Estadual Paulista (Unesp), fala sobre sua experiência.

“Quando você se aproxima de uma família, as pessoas querem descarregar tudo sobre você. Mesmo que eles saibam que você não vai resolver o problema. Eles querem que você escute”, conta.

A auto-estima da população do Núcleo Fortunato Rocha Lima é muito baixa e interfere na participação de atividades produtivas. “Eles não têm auto-estima. Não tendo auto-estima, eles ficam em casa vendo televisão quando tem ou ouvindo rádio quando tem”, conta Jane.

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Descarrego

A equipe de reportagem do JC também passou pela experiência com a população do Fortunato. Em conversas com os moradores, ouviu os lamentos referentes a asfalto, precariedade de iluminação pública, violência, problemas de tubulação de água e esgoto. Essa explosão de informações camufla o conflito maior - o psicológico.

O projeto “Jornal Comunitário Resgatando a Cidadania”, desenvolvido pelos alunos de jornalismo da Unesp Vanessa Matos e Bruno Ravanelli Pessa, detectou que 23% dos moradores reclamam da violência e que 17% queixam-se da falta de núcleo de saúde próximo ao bairro. O nível de escolaridade é baixo e a maior parte das pessoas vive no núcleo por falta de alternativa.

Um dos objetivos do projeto é resgatar a cidadania e a auto-estima dos moradores do bairro através da criação de um jornal comunitário.

“A questão do preconceito contra o bairro é uma coisa que mexe muito com a auto-estima deles. Isso acaba refletindo no sentimento de incapacidade que eles têm até para participar de uma reunião”, observa Bruno.

Entre essa população, há receio de manifestar as opiniões pessoais. “Quando eles percebem que são valorizados como seres humanos, independentemente de dinheiro ou de morar num bairro como o Fortunato, eles sentem-se motivados”, acrescenta o aluno.

Vanessa diz que os desabafos são comuns. “Até coisas que são muito pessoais a gente acaba sabendo”, afirma.

Apesar das dificuldades, a professora Jane destaca que é gratificante trabalhar com a população do Núcleo Fortunato Rocha Lima. “Quando um morador tem vontade de falar e um aluno que presta atenção ao que ele fala, ele fica muito feliz. É uma recompensa”, revela.

A professora critica a descontinuidade do projeto de desfavelamento, que não foi concluído devido à mudança de governo municipal da época. “Quando as chaves foram entregues, deveria ter ocorrido um acompanhamento da população”, avalia.