08 de julho de 2026
Geral

Doula dá apoio emocional às gestantes

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

“A mulher que serve”. Este é o significado em grego da palavra doula, que atualmente é utilizada para denominar as mulheres que dão suporte físico e emocional às gestantes, antes, durante e após o parto.

A atividade - antigamente exercida pelas mulheres mais experientes e que já eram mães - hoje pode ser desempenhada por qualquer voluntária treinada e disposta a acompanhar as parturientes, embora seja desconhecida pela maioria. Em Bauru, apenas duas pessoas foram preparadas com esse intuito e somente uma delas cumpre a função.

“Conforme o parto foi passando para a esfera médica e a assistência passou para as mãos de uma equipe especializada, as mulheres passaram a ter o momento do parto sozinhas. Ninguém cuida do bem-estar emocional daquela mãe num dos momentos mais vulneráveis da sua vida”, comenta a enfermeira obstetra Sandra Valentim.

Há três anos e meio, ela tem acompanhado parturientes desde o início da gravidez até após o nascimento do bebê. Na opinião de Sandra, que se respalda em pesquisas, as pacientes que recebem essa atenção ficam mais tranqüilas, têm um parto mais rápido e recebem uma quantidade menor de medicamentos para combater as dores.

Benefícios

Os benefícios são obtidos através dos cuidados prestados pelas acompanhantes, que têm como atribuição orientar o casal sobre o que esperar do parto e do pós-parto, além de fazer a interface entre a equipe médica e o casal na hora do nascimento do bebê.

A doula também ajuda a parturiente a encontrar posições mais confortáveis para o trabalho de parto, mostra as formas eficientes de respiração e propõe medidas naturais para aliviar as dores, como banhos, massagens, relaxamento etc.

Depois do nascimento do bebê, ela ainda faz visitas à nova família e presta orientações, principalmente em relação à amamentação e cuidados com o recém-nascido.

“O pré-natal não consegue suprir todas as necessidades. As mulheres também precisam estar preparadas fisicamente. Se as futuras mamães estiverem com as musculaturas abdominal e da coxa fortalecidas, o trabalho de parto é facilitado. Passamos exercícios para auxiliá-las. Porém, as doulas não executam qualquer procedimento médico, não fazem exame e não cuidam da saúde do recém-nascido”, ressalta Sandra.

Mesmo assim, segunda ela, as equipes médicas ainda resistem à atuação das voluntárias treinadas, contrariando as recomendações do Ministério da Saúde, que incentiva a participação das acompanhantes.

Resistência

Concorda com ela a psicóloga Mariane da Silva Fonseca, que atuou como doula em São Paulo e, atribulada com as atuais atividades profissionais, está afastada da função. “As pessoas, principalmente a comunidade médica, têm resistências. Tem gente que acha que vamos tomar o lugar de alguém. Queremos apenas dar um suporte emocional. No Brasil a atividade é nova, mas nos Estados Unidos existem até comunidades de doulas”, explica.

Para ela, com o acompanhamento da doula a gestante adota uma postura mais ativa em relação ao nascimento do bebê, o que também pode evitar problemas de depressão pós-parto e psicoses.

Pensa de maneira semelhante o ginecologista e obstetra José Osmar Guerini, que aprova a função das doulas. Segundo ele, é visível a diferença entre o parto das mulheres que recebem as orientações e de outras despreparadas. No primeiro caso, as mulheres ganham o bebê de modo menos traumático e se recuperam com mais rapidez.

“A gravidez é um período de transição, uma fase do ciclo vital da mulher na qual ela muda de filha para mãe. É uma superação de barreira. Ela vive uma identificação com o bebê que ela já foi. Ela vai regredir para poder avançar. Esse é um período de suscetibilidade da mulher, que gera a necessidade de várias atuações, inclusive a da doula”, esclarece Mariane.

A insegurança vivida pela gestante, que terá necessidades peculiares e particulares durante o parto, justifica também, e principalmente, o acompanhamento do pai do bebê ou do acompanhante escolhido pela mulher.

“A doula não substitui o pai, muito pelo contrário. O pai muitas vezes não sabe bem como se comportar naquele momento e a doula vai ajudá-lo a confortar essa mulher. Sua presença é fundamental e vai marcar a vida dele para sempre”, conclui a enfermeira Sandra Valentim.

Presença

A presença do pai nos exames pré-natais e no momento do parto está garantida na lei número 10.241, de 17 de março de 1999. Mas para garantir privacidade às parturientes do Sistema Único de Saúde (SUS), a Maternidade Santa Isabel se diz impedida de cumprir a legislação.

Segundo o diretor clínico da maternidade, César Augusto da Silva, as mulheres da rede pública de saúde que entram em trabalho de parto são atendidas num quarto comum. Por essa razão, a presença de terceiros poderia provocar constrangimentos às outras gestantes.

“O acompanhante é importante. Estamos abertos a qualquer interferência quando o sentido é o de ajudar. Mas tem companheiro que fica tão desesperado, que acaba atrapalhando. Não é qualquer pessoa que está preparada para dar conforto à mulher durante o parto”, explica Silva.

Segundo ele, por não compreender os processos de um parto, alguns homens acabam julgando mal os procedimentos médicos e destratam a equipe, que fica estressada durante o trabalho. A própria mulher sofre com isso, avalia Silva.