08 de julho de 2026
Articulistas

Combinação perversa


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Dados do FMI mostram que o Brasil tem um dos maiores spreads do mundo. A diferença entre o que os bancos pagam para captar dinheiro e o que cobram nos empréstimos gira em média em torno de 43%. Em média, os bancos pagam 19% quando um investidor faz uma aplicação e cobram 62% quando emprestam aos seus clientes. O alto custo do dinheiro e a baixa oferta de crédito são fatores altamente restritivos ao crescimento da demanda agregada no Brasil. Enquanto que em países como o Chile e no grupo dos sete países mais ricos do mundo o volume de crédito representa de 70% a 120% do PIB, no Brasil não ultrapassa a 25% do PIB.

A baixa oferta de crédito na economia brasileira deriva de dois fatores básicos: a obrigatoriedade dos bancos de recolherem 60% dos depósitos à vista junto ao Banco Central, o que reduz o volume de recursos disponível para empréstimos, e a alta rentabilidade proporcionada pelas operações de tesouraria realizada pelos bancos, que emprestam ao governo comprando títulos públicos, contribuindo assim para reduzir o volume de recursos que poderiam financiar os agentes privados.

A mais relevante causa macroeconômica relacionada à questão dos juros no Brasil refere-se a elevada taxa Selic. Suas principais determinantes residem no déficit fiscal do governo, nas recorrentes crises na balança de pagamentos e no compromisso do Banco Central com a meta de inflação. O problema dos custos do dinheiro no Brasil vem sendo equivocadamente focado quase que exclusivamente na redução da taxa Selic. Ocorre que as taxas de juros que sufocam a economia brasileira são as aplicadas ao tomador final. Para as empresas, as taxas giram em torno de 74% para o financiamento do capital de giro, 77% no desconto de duplicatas e 105% nas contas garantidas. O custo final médio para as pessoas físicas é de 61% no CDC, 110% no empréstimo pessoal e de 205% no cheque especial. Ou seja, os bancos multiplicam a taxa Selic de três a oito vezes quando emprestam para o tomador final.

A baixa oferta de recursos disponíveis para empréstimos contribui para forçar os juros para cima, mas a forte concentração do setor bancário potencializa a capacidade dos bancos de defini-los quando emprestam. Hoje, os cinco maiores bancos brasileiros concentram 55,3% dos empréstimos e 57,9% dos depósitos bancários. Na composição dos spreads o lucro dos bancos representa a maior parcela, chegando a 40%.

O custo financeiro no Brasil consiste num dos maiores entraves para a competitividade da economia e a estrutura do setor bancário representa um dos fatores determinantes para tal situação. Na Argentina, o spread é em média de 12,5%; no Paraguai, 15,8%; no Chile, 3,9%; em Angola, 38,6%; na Rússia, 10%; na Zona do Euro, 3,3%; e nos Estados Unidos, 3%. A combinação do poder dos bancos para definir o custo do dinheiro com a absorção pelo setor público de recursos que poderiam ampliar o crédito consiste numa perversidade que está aniquilando o setor produtivo da economia brasileira. (O autor, Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, é doutor em Economia pela Universidade de Harvard,EUA)