Na segunda-feira última, estava eu sentado em meu sofá, defronte à tv, assistindo a um dos programas de maior prestígio e formação de opiniões da tv brasileira, um conceituado jornal que, ao transmitir uma de suas notícias, daquelas que fazem com que o telespectador acredite e se conforme, com o pouco que tem, agradecendo a Deus, justificando tal agradecimento o fato de haver pessoas em piores condições financeiras. Típico clichê incidido nas raízes anêmicas da cultura intelectual dos brasileiros... Enfim, refiro-me à reportagem sobre a fila de espera para se cadastrar a uma possível vaga de gari na cidade do Rio de Janeiro/RJ e o depoimento de uma funcionária (gari) da empresa local, desabafando que venceu na vida após conseguir o emprego. Deixo claro que não tenho nada contra a árdua e digníssima profissão de gari, mas num país onde a desigualdade social é truanesca, é no mínimo conflitante acreditar que alguém que ganha R$ 610,00 por mês venceu nestes termos. Quiçá no máximo e aqui cabe a colossal cultura brasileira do “rebolado” e do “jeitinho” para driblar as dificuldades da vida e, portanto, sobreviver. Por isso, cuidado com a locução “viu só amor, ou escutou meu filho, tem muita gente em situação pior do que a nossa, temos que nos conformar com o que temos”, fazendo desta uma filosofia de vida. Conhecer a atual situação do país e própria do indivíduo humano é preciso, intimidar-se na busca do crescimento pessoal e espelhar-se nos momentos de crises em exemplos poucos promissores é retrocesso de vida. (Fabio Barbosa - RG. 28.783.003-2)