09 de julho de 2026
Cultura

O menino da roça e as borboletas amarelas

Irineu Azevedo Bastos
| Tempo de leitura: 2 min

Recebi do meu amigo Omar Barreto Campos uma correspondência com o título acima, de belo conteúdo, que divulgo aqui, depois dele ter me autorizado tal procedimento:

“O nosso menino da roça é atualmente um idoso cansado de guerra que costuma ajustar o retrovisor de longo alcance no túnel do seu tempo. Pôs, recentemente, o espelho virtual para refletir, de lá muito atrás, o menino sentado na escada da porta da frente da casa do sítio Catulé (Itabuna/BA). Estava integrado com os bandos de pequenas borboletas amarelas. De onde vinham tantas borboletas e para onde iam as amarelinhas, se perguntava o menino, sem achar a resposta.

Apareciam quase sempre numa certa quadra do ano, voando de um lado para o outro (da direita para a esquerda do observador), todo dia, o dia todo, seguindo sempre numa mesma direção, por mais ziguezagues que fizessem. Voando acima do mato alto em movimentos mais ou menos ondulatórios, como folhas ao vento; uma ou outra pousava aqui ou acolá, inclusive em pequenas flores silvestres, certamente para a reposição de energias para a longa jornada.

O certo é que o menino cresceu, e desde a adolescência, mesmo sem ter asas, percorreu no mapa da pátria uma distância muito maior do que fizeram aquelas borboletas amarelas de vida efêmera, até chegar aqui em Bauru, onde, na verdade, envelheceu além do limite dos oitenta anos, previsto na Bíblia para os mais fortes. E já tem reserva no Jardim do Ypê; talvez lá, uma borboleta amarela (aqui no Bosque da Comunidade aparecem somente umas poucas e desbotadas...) um dia venha pousar na lápide que deverá compartilhar com seu saudoso filho.

Daí, o que importa se hoje o velhinho, em horas insones, matutando ou borboleteando o seu pensamento, filosofa sobre as borboletas amarelas da sua infância perdida numa das primeiras décadas do último século do recém-findo segundo milênio? Ufa!...”

Quer na Secretaria da Economia e Finanças, da qual foi assessor; quer presença contínua na tribuna do leitor do JC, o amigo de tantas horas de convívio, nas quais sua paciência, sabedoria e sensibilidade, tornou-se inesquecível.

Recentemente, com ele conversei em frente a sua residência, defronte o Bosque, onde algumas borboletas amarelas ainda sobrevoam. Com os meus 85 anos bem vividos, o senhor Omar disse-me que, com a velhice, a pessoa recorda-se mais de fatos da sua infância do que dos mais recentes e de sua vida adulta.

Possivelmente, na velhice e que fica nítida a dissociação do tempo, do espaço e das dimensões, acrescento eu. E, desse patamar, refletimos, como Sylvie Vauclair fez em “Sinfonia das Estrelas”, que nosso planeta gravita em torno de uma estrela banal (o Sol), entre 200 bilhões de estrelas de uma galáxia comum, perdida em um Universo imenso, talvez mesmo infinito... Ufa! (O autor é escritor, historiador e colaborador do Ju Machado - Escritório de Arte)