08 de julho de 2026
Geral

Sem-terra protestam contra reintegração

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 4 min

As famílias de sem-terra que estão acampadas ao lado da estrada que liga o Jardim Chapadão ao Esquadrão da Vida fizeram ontem, no final da tarde, um protesto a favor da reforma agrária e contra a liminar obtida pela Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) para que eles deixem a área. O grupo chegou a interromper a passagem de veículos por cerca de meia hora.

Durante o ato, um dos coordenadores do movimento, Klinger Bueno, fez um discurso defendendo que aquela região seja destinada aos acampados. “Estamos batalhando por essa terra, que é do Estado”, afirma.

Na última semana, o juiz da 2.ª Vara Cível do Fórum de Bauru, João Thomaz Diaz Parra, concedeu uma liminar de reintegração da posse para a CPFL. A assessoria de imprensa da empresa informou que o pedido foi feito porque os sem-terra estão acampados debaixo das linhas de transmissão de energia, local que oferece riscos. Disse, também, que está negociando para que a saída do grupo seja pacífica.

Outro coordenador do acampamento, Celso Costa, confirma que os dois lados estão buscando um entendimento, mas que a falta de um lugar para transferir as famílias torna a situação mais complicada. “Nós sairemos pacificamente, mas não sabemos ainda para onde ir. O certo é que não deixaremos essa região do Horto Florestal”, revela. A data limite para que eles desocupem a área também não está definida.

Já Bueno fez críticas à CPFL. “Nós pedimos leite para as crianças e lonas, mas eles se negaram a dar”, declara.

Trânsito parado

Cerca de dez veículos foram obrigados a ficar parados durante o protesto. Apesar disso, o motorista Sérgio Mariano de Souza afirma que apóia o movimento. “Achei certo e concordo com a reivindicação”, opina.

É o mesmo pensamento do motorista Deomir Leite. “Não tem problema ficar parado. É uma causa justa”, diz.

Uma viatura da Polícia Militar chegou quando a estrada já estava liberada. Os policiais conversaram com alguns acampados e depois foram embora.

Enquanto a reintegração de posse não é cumprida, o grupo tenta fazer contatos políticos. “A Federação de Agricultura Familiar (entidade ligada à Central Única dos Trabalhadores) enviou um documento para um deputado estadual pedindo que ele coverse com o governador sobre o nosso problema, para que providências sejam tomadas”, revela Costa. Segundo ele, técnicos do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) estiveram ontem visitando os sem-terra.

Os coordenadores afirmam que há cerca de 190 famílias no local. Uma parte delas veio da região de Mogi Guaçu e a outra pertencia a um acampamento que ficava dentro do próprio Horto Florestal e que foi desocupado no início do ano. Antes do terreno atual, o grupo ocupou uma fazenda em abril, mas foi obrigado a se mudar devido a outra liminar.

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Escola

Os sem-terra aproveitaram também para reclamar que as crianças do acampamento não estão matriculadas em nenhuma escola da região. “Essa situação se arrasta desde quando chegamos aqui”, declara Antônia Vasconcelos. Ela diz que é formada em pedagogia e trabalha como professora do grupo.

Uma das mães, Sueli Garcia Guedes, diz que teme perder a guarda da filha de 15 anos. “Tive algumas informações de que o Conselho Tutelar de Mogi Guaçu, que é de onde eu vim, estaria querendo saber o motivo dela estar fora da escola”, afirma.

Segundo Celso Costa, há cerca de 80 crianças em idade escolar vivendo na área ocupada. Parte delas exibia cartazes pedindo um lugar para estudar. Os livros e cadernos que possuem foram colocados em cima de uma mesa durante o protesto.

O dirigente regional de Ensino de Bauru, Jair Sanches Vieira, diz que os contatos com o grupo começaram no início do ano. “Fizemos um levantamento e eles nos passaram que haviam 14 crianças precisando de vaga. Acertamos para que elas fossem matriculadas em duas escolas. Só que elas não apareceram e, quando tentamos contato, já haviam se mudado para outro acampamento”, afirma.

Vieira conta que procurou o grupo na época em que os sem-terra estavam na fazenda ocupada. “Fui comunicar que eles poderiam fazer matrícula na escola Ada Cariani no Mary Dota, mas isso foi na época em que eles estavam se mudando novamente. Eles podem, no entanto, freqüentar essa escola. A diretora já está até sabendo disso e há vagas disponíveis”, diz.