08 de julho de 2026
Regional

Índios se dividem entre crentes e católicos

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 2 min

Avaí – Crentes e católicos dividem hoje as terras do Araribá, em Avaí. Segundo o cacique Jazoni, pouco a pouco a religião nativa foi perdendo força, assim como a figura do pajé, o chefe espiritual da tribo.

“Desde o começo do mundo o índio já tem a religião dele. A do índio é a batepurunga. Agora depois que descobriram o Brasil e veio o Pedro Álvares Cabral para cá aí tudo mudou.”

O catolicismo, segundo Jazoni, há anos faz parte da aldeia. “Quando eu era criança eu fui batizado como católico e até hoje eu sou”

Já a religião evangélica chegou na tribo por volta da década de 80, conquistando muitos adeptos. Na aldeia Nimuendaju, segundo o líder, já existe até uma igreja.

“Nós aqui não somos obrigados a fazer uma coisa que não queira fazer. Aqui tem um bocado de católico, e um bocado de crentes também. Mas cada um respeita sua religião.”

Apesar do discurso diplomático, o cacique não esconde certa preocupação com a entrada de brancos para pregar dogmas religiosos dentro da tribo. Segundo ele, o ideal é que os próprios índios aprendam a realizar suas missas e cultos.

“Eu nunca aceitei que entre bastante gente civilizada aqui. Porque tem gente que aproveita para fazer a cabeça do índio.”

O cacique Reginaldo tem uma postura parecida e afirma que respeita o direito da escolha, apesar de dialogar com os líderes religiosos brancos para que não aja interferência na cultura local. “Mesmo assim há pessoas que tentam interferir”, conta.

O terena Gerolino José César, 37 anos, afirma que a igreja evangélica ajudou a ele e a outros índios de Araribá a se livrar do problema do alcoolismo. “Eu era uma pessoa muito alcoólatra. Eu fiz um voto com Deus e houve a mudança na minha vida. Eu larguei de beber pinga, eu fumava demais. De primeiro aqui muitas pessoas bebiam, agora diminuiu.”

Pajé

Jazoni também não esconde a preocupação com o esquecimento dos cultos indígenas. “A religião dos índios está ficando esquecida. Ninguém quer saber disso mais, quer saber da religião do outro.”

O discurso de Engracia Amende, 60 anos, pajé da aldeia Ekeruá, ilustra essa tendência. Numa conversa traduzida pelo cacique da tribo, ela afirmou que é crescente a falta de interesse por parte dos índios hoje em dia em apreender as funções e procurar a religião indígena. Engracia, que apreendeu a função com o marido, antigo pajé da tribo, lamenta a situação: “ninguém quer, não sei porque. Eu fico triste por isso e penso todo o dia e toda hora que assim nossa religião vai acabar.”