Consultar os arquivos do Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade do Sagrado Coração (USC) permite ao visitante ter acesso aos principais fatos que marcaram a vida de Bauru. Para preservar o acervo, que completa 20 anos em outubro, estão sendo investidos cerca de R$ 80 mil. A verba foi obtida junto à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
A mais nova atração é uma máquina de microfilmagem, avaliada em R$ 20 mil. “Conseguimos comprar uma manual, pois a digital, que já existe no mercado, custa US$ 123 mil. Agora, queremos microfilmar os arquivos mais procurados e os que requerem mais cuidados para, depois, disponibilizá-los através da Internet”, revela a assessora de pesquisa do Núcleo, Terezinha Santarosa Zanlochi.
Ela conta que esta seria uma maneira de preservar o material e, ao mesmo tempo, garantir que ele pudesse continuar sendo consultado. “O microfilme é a única forma de guardar documentos que é protegida por lei, pois ele tem valor jurídico”, revela.
A especialista em arquivos do núcleo, Márcia Regina Nava Sobreira, passou por um treinamento na Pontíficia Universidade Católica (PUC) de São Paulo para poder operar a máquina. “Existe todo um processo para fazer a transformação do documento em filme. Nós estamos comprando o material fotográfico e vamos começar a microfilmagem em agosto”, diz Terezinha.
Para armazenar o acervo, foram comprados armários de aço. “A madeira é úmida e pode estragar o documento. As pastas de arquivo têm que ser apropriadas, pois alguns tipos têm acidez”, conta a assessora.
A climatização da sala também é controlada. “Há um aparelho que mede a umidade do ar, que nunca pode estar acima de 55%. Se estiver muito seco, colocamos baldes com água e, se estiver muito úmido, aumentamos o trabalho do aparelho de ar condicionado. Além disso, os documentos precisam ser guardados em uma temperatura de 18º a 23º”, afirma.
A verba da Fapesp também permitiu a compra de equipamentos eletrônicos, como uma televisão e um DVD, que são utilizados quando o núcleo recebe grupos de visitantes.
Origens
Gabriel Ruiz Pelegrina, que é coordenador e também dá nome ao NAceituno Jr. núcleo, conta que a iniciativa de criar um espaço para preservar a história da cidade surgiu de um convite do professor Muricy Domingues. “Ele já me conhecia e eu aceitei a proposta, pois ele disse que a idéia iria deslanchar e contaria com o apoio da irmã Maria Elvira Milani, que na época era a diretora geral da USC”, relembra.
Ele conta que o núcleo já está no quinto endereço diferente. “Nós começamos com um acervo pequeno e, conforme fomos crescendo, íamos mudando. O primeiro espaço que tivemos foi uma saleta na biblioteca da universidade”, diz.
Hoje, o núcleo ocupa um prédio alugado, em frente à USC. Pelegrina afirma, no entanto, que já há um projeto para a construção de um espaço próprio.
Entre os documentos que estão no arquivo, existem raridades, como uma caderneta que pertenceu a Rodrigues de Abreu. “Ele a utilizou para rascunhar sonetos. Há muitas publicações que trazem informações erradas e, com ela, é possível verificar o que é correto”, revela Terezinha.
Pelegrina conta um desses casos. “Ele fez uma poesia chamada ‘Bauru’, escrita em 1925. O texto original dizia ‘Moro na entrada do Brasil novo’ e publicaram ‘Moro na estrada do Brasil novo’. Recorremos ao original para confirmar isso”, diz.
No total, são 996 documentos que pertenciam a Abreu. “Ele era internacionalmente conhecido e era amigo dos poetas da Semana de Arte Moderna de 1922. Temos também uma peça de teatro que ele escreveu”, declara Terezinha.
Além de Rodrigues de Abreu, o núcleo guarda também documentos do Poder Legislativo. “Temos o livro número 1 da Câmara Municipal. Fizemos um convênio com eles e assumimos a obrigação de preservar esse material dentro das condições metodológicas de pesquisa”, afirma a assessora.
Há ainda arquivos do Fórum, Cartório de Registro Civil, Diocese de Bauru, fotos e coleções de jornais, entre outros. “Para consultá-los, é preciso estar com luva e máscara”, diz Terezinha.
Entre as estantes, ela chama a atenção para o jornal mais antigo do núcleo, de 1896. “Eu o encontrei em um sebo, em São Paulo. Ele foi feito por estudantes que eram contra a república e queriam a volta da monarquia. Foram apenas 37 números, pois depois o jornal foi fechado. Ele não tem nenhuma propaganda e as críticas do editorial são as mesmas que ouvimos hoje”, revela.
Alguns jornais passaram por um processo de restauração, como uma coleção de O Bauru, de 1912. “Foi utilizado um papel japonês e uma cola especial”, diz Terezinha.
Ela conta que o núcleo já começa a inspirar outras iniciativas. “Pederneiras está implantando o arquivo e está utilizando alunos nossos”, afirma.
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Visitantes
A especialista em arquivos do Núcleo, Márcia Regina Nava Sobreira, revela que 300 pessoas passaram pelo local no mês passado. “Temos ainda cerca de 15 pesquisadores com presença constante”, afirma.
Um dos visitantes é o professor José Roberto Moraes dos Santos. Ele conta que fez uma pesquisa histórica sobre a ferrovia e as ruas de Bauru. “Eu pude descobrir porque o trânsito é tão caótico na região do Centro”, afirma. Ele conta que o material serviu de subsídio para o fórum de discussões Bauru + 10.
Além dos documentos, Santos aproveitou para visitar o museu do Núcleo. “A farmácia, os aparelhos antigos e os telégrafos me chamaram a atenção. Tanto que tenho algumas coisas antigas em casa e separei para doar”, declara.
Pelegrina conta que não são apenas os bauruenses que procuram referências históricas no Núcelo. “Já recebi pedidos da Argentina, Estados Unidos e Espanha”, afirma.
Terezinha explica que enviou fotos de arquivo para um morador de Taubaté. “O avô dele trabalhava aqui e era motorista do Centrinho. Ele se apaixonou por uma mulher e, quando ela não quis mais continuar o caso de amor, foi lá e a matou. Depois, cometeu suicídio. O neto quer, agora, reconstituir a história do avô”, diz.
• Serviço
As visitas ao Núcleo são monitoradas e podem ser agendadas pelos telefones (14) 235-7108 e 235-7109, ou pelo e-mail ndphbr@usc.br