10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Freios vêm de sucata, dizem ferroviários

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 2 min

Além das polêmicas campanhas salariais dos ferroviários desde a privatização da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), em 1996, os trabalhadores da Ferrovia Novoeste S.A. em Bauru reclamam dos salários baixos e da quantidade de serviço para um número de funcionários cada vez menor. Mesmo ferramentas e peças faltam, o que os obriga a “garimpar” máquinas quebradas e sucata em busca de itens como a sapata - que serve, nada mais nada menos, para frear a composição.

“Para o serviço vingar, sai uma equipe daqui e vai de cidade em cidade onde tem vagão jogado que o pessoal sucateou e vai tirando peças para o pessoal trabalhar”, afirma o artífice de manutenção P. (que prefere ter seu nome preservado), há 20 anos na empresa. Segundo ele, as sapatas velhas usadas nos trens fazem com que os maquinistas tenham um tempo de frenagem maior do que se estivessem com peças novas.

“A maioria das sapatas que a gente está colocando agora é sapata que foi retirada, está velha”, afirma o ferroviário. E observa: “É um risco de vida para os maquinistas”. Segundo ele, mesmo o teto da oficina onde trabalha está cheio de buracos.

O também artífice de manutenção Roberval Duarte, que trabalha há 25 anos na empresa, confirma que composições abandonadas ou em manutenção estão servindo de fonte de peças para máquinas em funcionamento. “Aquele (trem) que está parado, aguardando motor, vai retirando as coisas dele”, diz. Segundo ele, a prática foi apelidada de “canibalismo”.

Nas proximidades do pátio da rede ferroviária, no Centro de Bauru, dezenas de vagões estão, aparentemente, abandonados. Apesar do local contar com dois seguranças, o acesso é livre a pedestres e crianças brincam dentro dos vagões. De acordo com o ferroviário Duarte, “nada mais presta” naqueles vagões. “Aquilo ali não tem mais nada para roubar”, diz.

No último mês, houve pelo menos dois descarrilamentos consideráveis na região. No dia 25 de maio, um trem da Novoeste carregado de óleo bruto e diesel, que ia de Bauru a Campo Grande (MS) descarrilou próximo à Fazenda Val de Palmas. Há cerca de três semanas, um trem da Ferroban - pertencente à mesma holding da Novoeste, a Brasil Ferrovias - descarrilou em São Manoel. Em ambos os casos, a falta de manutenção nos trilhos foi apontada como culpada.

A assessoria de imprensa da Novoeste informou que a empresa não comenta as queixas dos funcionários sobre a manutenção - que, segundo a empresa, é feita regularmente.