08 de julho de 2026
Ser

'Túnel do Tempo' desperta ouvintes

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

Se antigamente as pessoas se reuniam para ouvir rádio à noite, hoje muita gente em Bauru também mudou os hábitos e acorda mais cedo para sintonizar, de segunda a sábado, das 8h às 9h30, o programa “Túnel do tempo” pelas ondas da 96 FM Bauru.

A mudança começou no dia 17 de março, quando o primeiro programa foi ao ar comandado pelo locutor Márcio Augusto, 31 anos, que é também um dos principais responsáveis pelo sucesso do “Túnel”.

Ele se recorda que a rádio já teve vários programas de flashbacks, como o “By Night”, que era noturno com músicas românticas e o “Flash Memory”, que promovia uma viagem no tempo na hora do almoço. Mas como sempre fez o horário da manhã, logo após o jornalismo do “Vivacidade”, achava que os ouvintes adultos ficavam carentes em seguida, pois assim que acabavam as notícias, os hits jovens que fazem a programação da emissora entravam no ar.

“Para não deixar os adultos na mão, resolvemos experimentar esse horário e deu certo”, conta o locutor, que se inspirou num programa de uma rádio paulistana onde já trabalhou, para conceber o “Túnel do tempo”. Na capital, o programa só toca dance antiga e transmite algumas informações do passado através de perguntas.

Em Bauru, o programa ganhou músicas de todos os estilos dos anos 70, 70 e 90, nacionais e internacionais, a participação dos ouvintes através do telefone, cartas e Internet e uma legião de fãs. Existem ouvintes que se comunicam todos os dias com a produção do Túnel.

“No início, nós começamos a incrementar o programa com trilhas de filmes. Mas o retorno e a participação foram tão grandes que começamos a buscar vinhetas de desenhos animados e jingles de tevê e rádio. Os ouvintes estão criando um hábito de pesquisa, enviam sugestões e até material que encontram no fundo do baú. Nesse programa, a gente conseguiu pegar um público que não ouvia rádio, aqueles que entravam no ônibus e ouviam uma música, aqueles que não param de trocar a estação, e ainda conseguimos fazer com que as pessoas participassem do programa. As idades variam de 16 a 60 anos”, comemora Márcio. “Muito ouvinte liga aqui e diz: o que você está fazendo, quer matar a gente?”

Como diria o “Rei” Roberto Carlos, das lembranças que trazem da vida, desenhos como Zé Colméia, Speed Racer, Pica Pau, Scooby Doo, e séries de televisão, produtos brinquedos, programas e locutores antigos são a saudade que os ouvintes mais gostam de ter.

Entre as coisas de Bauru, um jacaré que habitava a praça Ruy Barbosa é o campeão de lembranças. Outro recordista na memória dos bauruenses é o jornalista Flávio Pedroso, que hoje assina a coluna Conexão Biz, no Jornal da Cidade, mas que nos idos de 70 apresentava o programa “Jovem em tempo de carinho”, na Rádio Auri-Verde, com direito a crônicas românticas extraídas do livro “O mundo a cores”, lançado por ele.

“O saudosismo aqui é grande”, define o locutor. “Muita coisa eu vivi, mas, como me considero saudosista, vivo buscando novas coisas velhas”.

Marquinhos TC, co-produtor do “Túnel do tempo”, e que faz uma participação ao vivo aponta que o mais legal é poder correr atrás das coisas que não existem mais, ou daquelas que, às vezes, nem se lembra. “É um fascínio pelo resgate. Eu e o Márcio temos isso, essa mania de procurar coisa antiga.”

TC aponta que as pessoas vêm comentar que a mudança na programação mudou os hábitos matinais de muita gente.

O sucesso é tanto que a 96 FM produziu até um CD (veja quadro) com algumas das músicas que marcaram época dance: disco, romântica e de agito nas últimas décadas.

Desbancando Ana Maria

“Eu adoro o ‘Túnel do tempo’ ele resgata raridades e o Márcio (Augusto) é um geriatra das almas”, define a ouvinte Márcia Medeiros, 57 anos. Ela ressalta que, por ser uma rádio jovem, a 96 FM abriu um espaço e tanto para os adultos exercitarem a memória.

Márcia descobriu o programa andando de ônibus e confessa que não tinha o hábito de ouvir rádio. Como grande parte das donas de casa, ela acordava e ligava a tevê para ver a Ana Maria Braga. Mas a partir do dia em que ouviu o “Túnel” pela primeira vez, revela que colocou um papel ao lado do relógio para lembrá-la de ligar o rádio e em poucos dias o locutor bauruense desbancou a apresentadora loira. De lá para cá, Márcia não fica um dia sem ligar e participar do programa lembrando, como ela define, “as coisas de jovem”.

Outra ouvinte que também teve contato com o programa no circular foi a secretária Camila de Oliveira Matos, 23 anos, que trabalha ouvindo rádio e, antes do “Túnel do tempo”, era fã do “Flash Memory”. Ela conta que os temas de filmes são seus hits preferidos, mas o que mais sente saudade quando ouve as citações são as brincadeiras e os brinquedos de sua infância em plena década de 80.

“Hoje não se brinca na rua de balança caixão, pula cela, peteca, passa anel, vivo ou morto, bicicleta ou carrinho de rolemã. As brincadeiras estão todas no computador. Ela se recorda com carinho da boneca ‘Bate Palminha’ e recentemente ganhou uma “Fofolete” do namorado, também comprou um vai-e-vem e, como na infância, brinca com a mãe para exercitar os braços.

“Essa viagem no tempo é fantástica. A gente era feliz e não sabia”, afirma a dona de casa Alair Barbosa de Almeida, 44 anos, que apesar de ser ouvinte da 96 há muitos anos, também trocou a Ana Maria Braga pelo Márcio Augusto e ganhou prêmios do programa tamanha a participação.

Foram os filhos adolescentes que lhe ensinaram a sintonizar a programação jovem da rádio. “Devo a eles este hábito”, comenta. Alair diz que se esbalda quando ouve Bee Gees ou Pholhas no programa. “Me traz lembranças da mocidade, de um tempo de ingenuidade e de amigos de verdade.”

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Sons inesquecíveis

“I will survive” – Glória Gaynor

“Le freak” – Chic

“Got to be real” - Cheryl Lynn

“On the radio” – Donna Summer

“Zodiacs” – Roberta Kelly

“Souvernirs” – Voyage

“More, more, more” – Andrea True Connection

“Can’t take my eyes off of you” – Boys Twon Gang

“Dancing tight” – Galaxy

“Cloud across the moon” – Rah Band

“Girls just want to have fun” – Cindy Lauper

“Never gonna give you up” – Rick Astley

“Voyage, voyage” – Desireless

“Thriller” – Michael Jackson

“I’ve had (The time of my life) – Bill Medley & Jennifer Warnes

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Programadores fiéis

Durante o programa, o computador e os telefones não param. A cada cinco minutos, um novo pedido musical chega via Internet. As duas linhas que atendem ao estúdio da 96 FM no gancho que elas tocam novamente. Só para se ter uma idéia, durante um programa na semana passada foram 15 ligações atendidas (fora as de celular que acabam caindo), 12 participações on-line no site do programa e mais uma série de e-mails.

Os pedidos são dos mais diversos ritmos e tempos, de Maddona a Tavares, de Metrô (lembra-se de Beat Acelerado e da loirinha Virginie?), passando pelo Inimigos do Rei (aqueles da “Barata chamada Kafka”, liderados pelo Paulinho Moska, que em 90 atacou de MPB romântica e agora atende só por Moska) aos sons de lado B dos primeiros discos do Paralamas do Sucesso e da Legião Urbana.

No baú de lembranças, há de tudo o que se possa lembrar e algo mais. A equipe do Caderno Ser participou do programa no último dia 27 e pinçou algumas das pérolas extraídas da memória dos ouvintes.

Hudson Oliveira da Silva, 33 anos, lembrou-se das balas Signus, que vinham numa fita colorida com desenhos do zodíaco. Na sua lista de produtos estavam ainda a groselha Milani e os desodorantes Mistral e Cashmere Bouquet.

Já as brincadeiras fazem parte do universo de Jaime Oliveira Ferreira, 34 anos, que se recorda de jogos como: pé na lata, queima, passa-anel e até de foguinho na casa do vizinho.

Aos 40 anos, Regiane Pacheco não se esquece do brinquedo vai-e-vem, (que hoje é encontrado em alguns camelôs) e das revistas de fo “Capricho” (que hoje é a Revista da Gatinha) e Grand Hotel.

O agente de viagens Marcos Campos, 29 anos, apontado como um dos ouvintes mais “caxias” do programa, é vidrado em objetos e produtos antigos, confessa que vive caçando preciosidades em sites e enviando para a turma da 96 FM. “Adoro conversar com os amigos sobre o assunto, cada um vai mais fundo na memória.”

Ele recorda-se com carinho de toda a coleção de Playmobil, mas conta que não guarda nenhum dos bonecos para contar história. Do fundo do seu baú de lembranças também está o colar do Greg, um personagem de novela que usava um fio de telefone com cadeado no pescoço. Você se lembra?

Mais jovem que os demais, Tiago Fausseti, 19 anos, lista as polainas coloridas, os tênis iate e a moda do ioiô que acendia.

Entre tantas preciosidades no mesmo dia, também foram citadas as calças Us Top, as balas de leite Kids, a boneca Dorminhoca, o programa Bambalalão e as boates Banks, de Duartina, e Casulo, de Cabrália Paulista. Haja memória!