Com muita paciência. Só assim é possível andar em veículos que mais parecem uma “orquestra” ambulante em razão da quantidade de rangidos, estalos e vibrações capazes de irritar até os motoristas mais calmos. Mas um pouco de cuidado na manutenção e em pequenos hábitos do dia-a-dia é possível evitar que novos barulhos apareçam e, até, fazer os já existentes desaparecerem.
Antes de mais nada, os instrutores automotivos da unidade bauruense do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Jefferson Luiz Augusto Gomes, Lourival Ortiz de Camargo e Reinaldo Genovez, fazem questão de enfatizar que carro sem barulho é missão impossível. “É utopia”, destaca Jefferson.
Os técnicos ressaltam que os barulhos nos automóveis figuram entre os problemas mais difíceis de serem descobertos e corrigidos em virtude de um fenômeno conhecido como ressonância, uma espécie de transferência de energia de um sistema oscilante para outro. “Isso aumenta a dificuldade do diagnóstico e comumente engana o dono do veículo sobre a real origem do defeito”, afirma Genovez.
Por essa razão, acrescenta Lourival, o melhor a fazer ao perceber um barulho interno ou externo no carro é levá-lo até uma empresa ou profissional especializado. “O ideal é que o dono do carro dê algumas voltas com alguém devidamente treinado para identificar o local exato do barulho. O achismo pode levar a conclusões apressadas e à desmontagem desnecessária de componentes do automóvel”, alerta ele.
Lourival conta já ter acompanhado de perto em concessionárias autorizadas alguns casos típicos de enganos. “Certa vez um cliente disse que seu carro estava com um barulho na traseira. Desmontaram a suspensão inteira e trocaram amortecedores e o problema não desaparecia. Depois de muito trabalho descobriram que a origem do problema estava no painel”, lembra o instrutor.
Pontos críticos
Com essas recomendações em mente e seguindo o princípio da manutenção preventiva, há uma infinidade de itens que podem ser checados a fim de evitar a “sinfonia” do barulho em seu automóvel. Entre todos, os mais críticos e propensos aos incômodos estalos, rangidos e demais barulhos são as suspensões, os freios e os painéis.
Nas primeiras, conforme Lourival, muitos problemas aparecem devido ao desgaste natural dos seus componentes. “Como os amortecedores são a base de sustentação da carroceria, acabam sendo os responsáveis pela absorção dos impactos do piso, que podem gerar folgas em suas hastes e um ruído característico de vibração”, destaca o instrutor.
Já nos freios, excetuando-se os chiados característicos do desgaste de lonas e pastilhas, a maioria dos barulhos provenientes do sistema originam-se das folgas nas pinças, componente que atua como um “alojamento” daqueles equipamentos. “Quando elas surgem, os barulhos são inevitáveis”, enfatiza Lourival.
Os painéis também costumam “pentelhar” os donos de automóveis com rangidos e estalos. Boa parte deles originam-se, segundo Lourival, da ação dos raios solares sob o plástico, matéria-prima principal do componente. “Eles ressecam o painel e provocam barulhos que podem ser solucionados com o revestimento de feltro ou espuma”, ensina ele.
Outros “inimigos” dos painéis lembrado por Jefferson são as moedas, que caem nos dutos de ar, e os equipamentos sonoros mal instalados. “Por isso, deve-se evitar deixar dinheiro sobre o painel e prestar muita atenção após a instalação de aparelhos de som a fim de verificar o surgimento de barulhos”, alerta o instrutor.
Ainda nos painéis, também é bom checar, conforme os integrantes do Senai, o conjunto da fiação interna que eles costumam carregar, os chamados chicotes. “Se as presilhas que os prendem estiverem soltas ou quebradas, certamente haverá ruídos originários dali”, diz Lourival.
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Faro fino
Além das peças e componentes já citados, há outros em que a ocorrência de barulhos também costumam dar dor de cabeça aos donos de automóveis.
Os papelões das portas são um deles e encaixam-se no mesmo caso dos painéis. “Todo material plástico está sujeito a ser um agente causador de ruídos, principalmente se for exposto ao sol permanentemente. Por isso, a receita é deixá-los, sempre que possível, longe dos raios solares”, destaca o instrutor Reinaldo Genovez.
Bancos de couro também merecem atenção especial. O técnico Jefferson Luiz Augusto Gomes recomenda que eles sejam limpos apenas com um pano levemente umidecido em água. “Jamais deve-se utilizar silicone, pois irá provocar efeito contrário. Em vez de hidratá-lo irá ressecá-lo e deixá-lo com um barulho extremamente desagradável”, alerta ele.
O motor é outro que não está livre da “sinfonia”. Segundo Lourival, os coxins, componente que funciona como uma espécie de mola de sustentação do propulsor e do câmbio, são um dos maiores “vilões”. “Devido ao uso e ao desgaste, começam a surgir folgas que podem gerar ruídos”, diz.
O uso constante também é o responsável pela maioria dos barulhos nas caixas de direção dos veículos, provocados pela perda de eficiência das buchas do sistema. “Eles podem ser percebidos em curvas, quando surgem estalos”, frisa Jefferson.
Outros pontos passíveis de se tornarem “centros” de tormentos aos motoristas também lembrados pelos instrutores do Senai são as trincas, provocadas principalmente pelo rebaixamento da suspensão, e pontos de solda na carroceria, além das buchas dos trilhos dos bancos, a bateria e escapamentos soltos, o protetor de cárter e, até, os pneus.
“Quando estes desgastam-se de forma irregular e formam-se caroços na banda de rodagem, geram barulhos que dão a impressão de problemas nos rolamentos das rodas”, conclui Lourival.