Foi com choque e estupor que os petistas tomaram conhecimento da despropositada decisão da bancada do Senado de “desligar temporariamente” a senadora Heloísa Helena. Ao que atribuir esta escalada contra a democracia no PT? Está claro para todos o agravamento da situação no país – os recordes de desemprego e queda de renda, com as montadoras estendendo férias coletivas, estão aí mesmo, numa situação onde os juros altos não deixam prever nenhum “espetáculo de crescimento”; seis meses depois da posse, o governo tarda a iniciar a resolução dos mais agudos problemas do país – miséria, desemprego, recuperação dos serviços públicos e da própria soberania nacional – como manifestaram 53 milhões em 27/10.
Assim se entende a insatisfação, mesmo a exasperação. Como quando os trabalhadores sem-terra saqueiam caminhões de macarrão e biscoito em Pernambuco, e uma senhora declara: “Até agora Lula não fez nada, abandonou a gente e ainda chama de afobado, só que a barriga dele está cheia” (OESP, 02/07).
O próprio superintendente regional do Incra reconhece que “somente 7 mil cestas básicas foram distribuídas em Pernambuco que precisa, no mínimo, de 20 mil por mês. É complicado pedir paciência a quem tem fome”. De fato, com diferença apenas de grau, toda a nação tem fome! Mesmo a classe média remediada, revela a conservadora Veja, afundou 15% em um ano. O que já levou Lula a explicar que “pegou o país quebrado, e alguém tem que para salvar o país!”. Só que não vai salvá-lo, continuando a política que o quebrou.
Tudo se concentra nisso. Ninguém tem que ter paciência com a continuação dessa situação, fortunas engordando, especuladores especulando, sonegadores sonegando, e o dinheiro saindo do país de forma fraudulenta, como revela a CPI do Bandestado. Ninguém, nem trabalhador rural, nem senador do PT. É por isso que os servidores federais, depois de 8 anos sem verdadeiro sem reajuste, decidiram ir a greve em 8 de julho contra um reforma da Previdência que, sem melhorar nada para os trabalhadores do setor privado, reduz os seus direitos previdenciários - aumenta a idade mínima, taxa os inativos e introduz os fundos de pensão -, empurrando a Previdência para o mercado financeiro. As “emendas” da bancada do PT mantém essa redução, e inclusive o “fundo de pensão nacional” proposto é para concorrer com os demais no mercado de “risco”.
Assim, em vários Estados, os atos do último dia 26 já mostraram uma disposição de luta entre os federais, inclusive com algumas greves de advertência. Eles começaram construir seus comandos de greve eleitos na base e estender pontes para a unidade vital com os estaduais e municipais. Para que o governo suspenda a tramitação da PEC 40, e retire-a do Congresso para dar lugar à negociação, o meio que resta é a greve. A cúpula do governo não poderia esperar outra coisa. E porque esperar outra coisa dos parlamentares do PT? Imagina a cúpula do governo resolver a insatisfação do povo, mesmo a exasperação, com “enquadramento disciplinar”? Nem do povo nem do partido!
Tem razão o senador Suplicy que se auto-afastou da bancada porque, esperando ver “abrir espaço para o entendimento”, constatou que “estão fechando cada vez mais o cerco”. Sim, é um cerco. Senão, como entender essa medida da bancada do Senado, de surpresa, obtida à força de um voto 8 x 4, no dia seguinte à audiência na Comissão de Ética, depois que sua conclusão foi adiada para o Diretório de setembro, e sem qualquer fato novo? Como pode pretextar uma “quebra de confiança” quem age de maneira tão desleal? Não é evidente que a cúpula, ou alguém nela, está agindo de forma desagregadora? E a quem interessa a desagregação do PT, num momento tão delicado, quando de todos os lados se multiplicam pressões contra sentido do voto de 27 de outubro?
É com revolta e indignação que a Corrente O Trabalho adverte para o recrudescimento desta insanidade: o ataque contra a democracia, essencial para a convivência no PT, ainda mais agora que o PT chegou ao governo federal. Seja quem for o iniciador desta ofensiva, ela é um ataque ao PT, que terminaria por colocar o PT em questão. Por isso que a Corrente O Trabalho, em defesa do PT, chama ao restabelecimento pleno da democracia, dizendo duas vezes não às punições aos parlamentares.
De nossa parte, apoiamos com toda força o recurso de Heloísa à Executiva Nacional e convocamos todos a se manifestarem, enviando moções via e-mail para a presidência do PT (presidência@pt.org.br) exigindo a reintegração imediata de Heloísa Helena a bancada de Senadores do PT. (Roque José Ferreira - Membro do Diretório Estadual do PT - RG. 9.656.049)