08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O findar de uma vida


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Seus cabelos sedosos iam se rareando, tornando-se cada vez mais visíveis e pesarosos os sinais acentuados de prematura calvície, instalando-se na parte mais expressiva de um corpo humano, ainda no limiar de sua vida. Na sua ingenuidade achava que eles estivessem caindo num processo de desajuste hormonal e assim voltariam mais fortes e volumosos, lamentável engano. Seu físico definhava-se e a vida escapava-lhe inexoravelmente; todos nós sabíamos, ele não. Ao comprar-lhe uma peruca ele a recusava, achando graça, dizendo não se importar em ficar careca, seria por pouco tempo. Seu organismo padecia a agressividade de um mal implacável que está dizimando milhões de pessoas, deixando suas famílias em desesperadas agonias.

Recorríamos a tudo que se nos parecesse alguma esperança ou mesmo simples lenitivos; pedíamos aos deuses de todas as religiões que se reunissem e, por compaixão, poupassem essa vida que estava desabrochando próxima à adolescência e cheia de perspectivas promissoras. A morte sugava-lhe a vida como um beija-flor o néctar de um botão de rosa. Rezávamos em prantos e às escondidas, contando nos dedos os dias regressivos que os médicos lhe deram, como um condenado no corredor da morte, não tendo como dela escapar. O espectro do carrasco brandia sua hedionda foice do mal sobre a cabeça ainda imberbe de nosso ente querido, disposto a ceifar-lhe a vida sem piedade. Que fossemos os dois em seu lugar, já vivemos o suficiente e sempre tementes a Deus, ele não. A insidiosa moléstia carcomia com avidez aquele físico que outrora se desenvolvia cheio de vida preste a entrar na adolescência. Os recursos da medicina moderna não adiantaram, parecia os Deuses não querer revogar aquela sentença de morte.

Ha... Como é doloroso perder um filho na fase mais bonita de sua vida, como se fora viçoso botão de rosa colhido prematuramente, impedida de desabrochar e tornar-se, talvez, em belo ramalhete de flor. Na sua inocência não atinava da gravidade do mal que o acometera. Não lhe faltaram recursos para sua recuperação, embora soubéssemos da sua ineficaz validade. Na aflição que se apodera de seus pais nessas angustiantes situações, levam-nos a buscar qualquer vislumbre de esperança, mesmo sabendo não existir. Só nos restava rezar e aguardar a complacência divina: se não favorável, alguma razão deveria existir acima de nossos anseios. A perda de um familiar já vivido é por demais doloroso, mas facilmente compreendido e aceitável, por mais próximo que nos seja sua consangüinidade. Choramos-lhe a morte, sentimos-lhe a falta, mas não nos desesperamos. A morte, sabemos, é um processo natural da vida que um dia acaba, mas a perda de um filho no desenvolver de sua adolescência é algo que dilacera nossos corações. Somente os pais que passaram por essas dolorosas adversidades podem avaliar o sofrimento que nos torturam pelo resto da vida. Mas como Deus só nos impõem padecimentos que podemos suportar, com o tempo nós os assimilamos, guardando no peito sentindo e inesquecíveis saudades: Robson é o seu nome. Pais jamais deveriam sobreviver aos filhos, é muito doído para os que ficam. (Felisdeu Leão)