09 de julho de 2026
Regional

Aposentado esculpe arte em madeira

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

Lençóis Paulista – Dono de um velho canivete e de uma personalidade perfeccionista, o aposentado JoséVagula, 70 anos, morador de Lençóis Paulista (40 quilômetros a Sudeste de Bauru), produz miniaturas em madeira que impressionam o mais exigente dos observadores.

Em 12 anos de entrega a um ofício meticuloso, o escultor coleciona 63 obras, entre locomotivas, aviões, helicópteros, barcos, carros de corrida e motocicletas.

Desde as peças mais trabalhadas até os minúsculos pinos que dão encaixe a seus complexos quebra-cabeças, Vagula não faz uso de outra matéria-prima que não seja a madeira cabreúva. E nenhum detalhe é esquecido. A locomotiva de 50 centímetros de comprimento e 15 de altura, por exemplo, possui 400 peças, e levou cerca de cinco meses para ser finalizada.

“Eu fiz inclusive os trilhos e os preguinhos de madeira que seguram o trilho. O lenheiro, os cilindros, o farol, o sino, apito, o relógio que marcava a pressão, a velocidade e a hora. Esses detalhes estão todos na minha memória. Para eu fazer uma maquininha dessa eu não preciso olhar em nada. Eu lembro que elas corriam na estrada de ferro há 40, 50 anos”, conta.

Além da memória fotográfica, a paciência e a precisão são importantes aliadas do escultor durante o processo de criação. Um de seus trabalhos mais complexos, uma locomotiva de cerca de 60 centímetros que está sob os cuidados do museu da cidade, levou cerca de 11 meses para ser concluído.

Alguns exemplos de veículos, como a maria-fumaça, fazem parte das lembranças do escultor. Outros, Vagula afirma ter visto na televisão, como os carros de Fórmula 1, ou em fotografias de revistas. “No caso do (avião) 14 Bis, na foto não dava para ver como era o motor, então eu fiz um da minha invenção”, confessa.

Os detalhes são muitos e exigem dedicação integral do artista. Nos modelos de motocicletas, por exemplo, Vagula se preocupou em esculpir inclusive a torneira móvel para abrir e fechar o combustível, as chaves no contato, além das dezenas de pinos que sustentam a corrente do veículo.

Para atingir a forma ideal, além do canivete, as lixas também são suas fiéis e indispensáveis ferramentas. “Além disso, no meu trabalho eu uso uma serrinha de cortar madeira e uma maquininha de furar. Não tem um prego, é tudo encaixado”, afirma.

Questionado sobre o segredo de suas habilidades, Vagula não vacila e recorre às origens. “Eu sou filho de marceneiro, sobrinho de marceneiro, tenho o nome de São José, que também era marceneiro”, explica.

Amigos

Apesar da notoriedade conquistada na cidade como escultor, Vagula afirma que não faz das miniaturas fonte de renda. “Eu não faço carrinho para ganhar dinheiro. Eu faço para distrair e passar o tempo”, explica.

Com a maior parte das obras, o escultor presenteou amigos e o assédio foi tanto que hoje já não possui nenhum trabalho em sua casa.

Para matar a saudade da criação, freqüentemente o escultor visita o escritório de um advogado, que preserva dez miniaturas.

“Volta e meia eu venho ver meus carrinhos aqui. Mas sabe que eu não acredito que sou eu que faço os carrinhos. Nunca acreditei. A hora que eu vejo pronto, fico namorando”, conta.

Vagula afirma que tem prazer em presentear os amigos e continuar sendo lembrado por sua obra. “Eu não tenho nenhum filho. A minha família vai acabar, não vai ficar mais fazedor de carrinho. Por isso quero deixar as coisas que eu faço para ficar como uma lembrança.”

O museu da cidade abriga 12 miniaturas do escultor. Atualmente, o prédio está fechado para reformas.

Encontro

Por ironia, José Vagula se encontrou com a arte em um momento especialmente difícil da vida. Seu único filho, de 23 anos, havia morrido em um acidente de motocicleta. Com a tristeza, vieram também as doenças, que o trabalho artesanal aos poucos ajudou a curar.

“O médico me mandou fazer uma coisa para distrair, que era mais fácil para sarar. E disse que prestando atenção naquilo eu esqueceria da doença.” Foi assim que Vagula iniciou sua trajetória de escultor há 12 anos.

Agora, nos últimos meses a vida lhe trouxe outro desafio. Vagula teve descolamento de retina, se submeteu a uma cirurgia e atualmente está separado de seu ofício. O escultor ainda não sabe quanto tempo vai durar esse jejum e não esconde a inquietação de não produzir novas obras. “Eu estou ficando furioso. Eu queria fazer uma máquina de esteira. Se eu não conseguir ficar bom da vista, eu não vou poder fazer mais carrinho, porque é preciso enxergar bem para fazer as peças.”

Trajetória

José Vagula conta que cresceu na zona rural e dedicou grande parte de sua vida à lavoura. “Até hoje, quando eu não estou fazendo carrinho eu estou trabalhando no sítio”, conta.

Observando o pai marceneiro, ele aprendeu os segredos no trato da madeira. Mas conta que nunca chegou a se dedicar muito ao ofício.

Há 13 anos, Vagula veio para a cidade. Quando descobriu a escultura, os primeiros trabalhos eram simples, mas com os anos foram ganhando em detalhes, ao mesmo tempo em que o artista aprimorava sua técnica e estilo próprios.

Os “carrinhos”, nome dado a suas obras na intimidade, sempre foram uma paixão de infância. Mas de observador dos veículos, Vagula passou a ser o criador exigente de uma verdadeira frota.

“Eu fui fazendo cada vez mais difícil para usar bastante a memória. Cada vez eu complico mais. Eu gosto de desafiar a memória. Sinto de ter 70 anos, queria ter 30, porque eu ainda ia fazer muitas coisas difíceis”, conta.

A esposa Maria Aparecida Vagula, 59 anos, confirma essa doce obsessão: “Quando ele fica com os carrinhos, ele perde a noção do tempo.”