08 de julho de 2026
Cultura

Herchcovitch lembra Volpi

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 2 min

Modelos desfilando em ziguezague ao som de cantigas de roda numa passarela branca enfeitadas com bandeirinhas brancas de papel rústico. O arraial junino que Alexandre Herchcovitch levou à passarela da 15ª edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), na última quarta-feira, mostrou que a cultura brasileira extrapola quintais. O colorido e as formas das peças do estilista formavam quadros dignos de Alfredo Volpi.

Sem o menor referencial de festas juninas na infância, o paulistano Herchcovitch revela que se preocupa com a maneira que os estrangeiros vão encaram sua coleção feminina de verão 2003/2004. “Era uma coisa que eu sabia da existência, e só. Como explicar isso seria uma coisa ainda mais complicada, optei por defini-la como uma coleção inspirada no folclore brasileiro, pois até mostrar o que é festa junina não iria ser fácil”.

Além das festas juninas, a liberdade com que o brasileiro se veste, com uma mistura despretenciosa de cores e estampas, serviu de inspiração para a coleção que mescla sapatos baixos e de plástico colorido, numa releitura dos primeiros modelos Melissa, lingerie sobreposta, vestidos angelicalmente xadrezes ou de lingerie branca transparente.

Herchcovitch também investe em macacões e bermudas jeans com muitos zíperes, bolsos e barras italianas, tecidos fluidos, saias com babados na altura dos joelhos, blusas com decotes tipo bustiê, estampas florais e geométricas ao mesmo tempo, com uma forte presença das padronagens usadas pelas senhoras nos anos 70, a volta do espartilho e corseletes, muitas vezes em forma de tops e sutiãs cirúrgicos sobrepostos, que serão o hit da estação.

O toque interiorano e até caipira da coleção aparece nos detalhes feitos em tecido imitando palha, barrados de fuxico e na união dos retalhos, geralmente triangulares ou em formas de bandeirinhas, como fez na melhora fase de sua carreira o artista plástico autodidata Alfredo Volpi, o pintor das bandeirinhas, considerado o melhor artista brasileiro na década de 60 e que jamais se deixou influenciar por antecessores e contemporâneos.

Esse é um traço que se repete em Herchcovitch, mas que ele aceita com modéstia. “Se você interpreta meu trabalho dessa maneira, e acha que Volpi simboliza a minha coleção, eu só posso lhe agradecer. Mas eu faço roupa, não acho que faço arte. Tenho novas idéias e trago novas formas de se vestir. A arte pode ser um nome para as pessoas entenderem melhor o que estou fazendo. Eu faço roupa, só isso”.

Entretanto, inventar moda e fazer arte é com ele mesmo, no desfile de inverno deste ano, sua modelo preferida, Geanine Marques, cantou hits dos anos 50. A coleção de verão veio embalada por uma trilha com as mais tradicionais cantigas de roda interpretadas ao piano de Heitor Villa-Lobos.

Até a patrocinadora do desfile teve marketing com arte, o estilista presenteou cada convidado com uma bolsa jeans em patchwork, triangulares, é claro, costurada com fio dental Close-up.