Cultivar bom relacionamento com os vizinhos é uma prática saudável que faz bem emocionalmente e fisicamente ao ser humano. É o que afirma a psicóloga Carmen Maria Bueno Neme, psicóloga e professora do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
“O bom relacionamento é melhor para todos”, enfatiza Carmen. Ela explica que a mudança de valores e o individualismo exacerbado levou as pessoas a deixar de lado determinadas atitudes.
“Hoje, ninguém liga para a tolerância, para o respeito, para o cuidado. As pessoas acham que podem viver olhando para o próprio umbigo”, expõe.
É possível observar hoje, em bairros de Bauru, o fenômeno das grandes cidades de isolamento das pessoas. “Elas foram cada vez mais se recolhendo”, diz.
A psicóloga explica que à medida em que aumentou a população na cidade, aumentou a solidão. “Por mais paradoxal que seja. As pessoas hoje vivem mais próximas fisicamente, mais juntas, mais aglomeradas, porém mais sozinhas”, avalia.
“Parece que a necessidade de compartilhar as coisas da vida e da intimidade está sendo de alguma forma satisfeita através desses programas de televisão que bisbilhotam a intimidade das pessoas”, acrescenta a professora.
Além do isolamento, o aumento de pessoas por metro quadrado pode gerar agressividade. “Mais ou menos o que acontece com os animais. Entre vizinhos muito próximos, pode haver projeção de agressividade e raiva. Até por conta de que as coisas ficam muito comunicadas. O vizinho escuta uma música, o outro é obrigado a ouvir”, diz.
Ao mesmo tempo em que as pessoas precisam de contatos, elas fogem deles e se incomodam com a “bisbilhotice”. “As pessoas estão mais voltadas para dentro de casa. “Elas falam do incômodo de vizinhos que ficam observando, comentando, cuidando da vida dos outros”, conta a psicóloga.
Na opinião de Carmen, quanto mais os meios de comunicação avançaram, ampliando a comunicação global, mais as pessoas ficaram isoladas. “A solidão tem aumentado muito”, reforça.
Aprender a conviver sem problemas está relacionado à personalidade de cada um, de acordo com a professora. “Há ruas em que há muita amizade e companheirismo entre as pessoas e há casos de vizinhos que se dão bem e criam vínculos mais profundos que com parentes”, ilustra.
Limite
Lidar com os limites pessoais é outro desafio na convivência entre vizinhos. Algumas pessoas não se sentem invadidas pela proximidade, enquanto outras se incomodam. A insegurança e os problemas de identidade são fatores que agravam as dificuldades de estabelecer limites.
“Às vezes são discórdias por questão de metro quadrado mesmo. Mas muito dessa questão é simbólica. É muito difícil para as pessoas lidar com o limite”, expõe Carmen.
De acordo com a psicóloga, pesquisas comprovam que o efeito do estresse no sistema imunológico é mais devastador no grupo de pessoas solitárias. “A falta de rede de apoio é muito prejudicial”, salienta.
A psicóloga acredita que a educação formal e informal deveriam valorizar a necessidade do bom relacionamento entre as pessoas. “É bom lembrar que nenhum homem vive sozinho, O ser humano já nasce no meio dos outros homens”, conclui.