Ele começa de forma discreta e quase imperceptível. Muitas vezes, uma simples ferida, muito parecida com uma afta, pode ser o sinal de um problema ainda mais grave: o câncer de boca. De acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), estão previstos para este ano, no Estado de São Paulo, 4.040 novos casos, com possibilidade de até 1.190 mortes causadas por essa doença.
Comparado a outros tipos de câncer, o da cavidade bucal não tem números tão expressivos. No entanto, o otorrinolaringologista João Fanton Neto, do Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital Amaral Carvalho (HAC), de Jaú (a 47 quilômetros a leste de Bauru), diz que a incidência é alta na população em geral e que a agressividade da doença no organismo é muito grande.
“O grande problema desse tipo de tumor é a diferenciação em relação a outras enfermidades”, salienta.
O grupo de risco é formado por homens, acima de 40 anos, fumantes e etilistas (usuários de álcool). No entanto, a doença também se manifesta em mulheres, principalmente naquelas que fazem uso do cigarro e do álcool.
Por ser um País tropical, com grande quantidade de trabalhadores rurais, o Brasil se destaca no que diz respeito a esse tipo de doença. A informação é do Inca, que salienta que isso ocorre devido à ocorrência do câncer de lábios entre as pessoas que permanecem por muitas horas no sol.
Disfarce
Fanton Neto explica que um dos grandes problemas do câncer de boca é a sua detecção. “Há uma espécie de receio, de dificuldade do paciente em procurar o médico”, salienta.
De acordo com ele, na maior parte das vezes, a pessoa convive com a lesão por acreditar que ela vai melhorar. “Também existe o problema da falta de preparo dos profissionais da saúde em diagnosticar a doença”, ressalta.
Para tentar amenizar essa situação, o HAC lançou, no último dia 30, um programa de prevenção.
Pequenas feridas nos lábios, língua, gengiva ou céu da boca podem ser um indício da doença. Mas, em muitos casos, as pessoas não relacionam esses sintomas com o câncer. Isso dificulta o tratamento pois, quando procura tratamento, o paciente já está com o problema em estado avançado.
O principal fator desencadeante da doença é o fumo. “O cigarro não é a causa básica, mas ele tem uma forte influência”, explica Fanton Neto.
Segundo ele, há indivíduos que nunca fumaram e que podem desenvolver o problema, bem como pessoas que fumam há muitos anos e que nunca terão câncer de boca. Isso acontece devido à pré-disposição genética para a doença, condição intrínseca de cada ser humano.
O álcool também tem papel fundamental na formação da neoplasia. Além de atuar diretamente no desencadeamento do câncer, ele também torna as mucosas mais permeáveis para a ação do cigarro. “A associação com o tabagismo é desastrosa para o aumento da incidência desse tumor”, afirma Fanton Neto.
Outros fatores que influenciam no desenvolvimento do câncer são próteses dentárias mal ajustadas, má higiene bucal, cacos dentários que ficam em atrito com a língua e bebidas muito quentes, como chimarrão (quando ingeridas com certa freqüência).
O médico alerta que as pessoas - principalmente as que fazem parte do grupo de risco - devem ficar atentas a feridas e aftas que persistem por mais de duas semanas. Também devem se preocupar ao notar manchas esbranquiçadas ou avermelhadas nos lábios ou na mucosa bucal.
“Dificuldade de fala, mastigação e deglutição, além de emagrecimento acentuado, dor e presença de linfadenomegalia cervical (íngua no pescoço) são sinais de câncer de boca em estágio avançado”, define o site do Inca.
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Prevenção
Aproximadamente, 30% dos pacientes que chegam ao Hospital Amaral Carvalho (HAC) todos os meses em busca de tratamento têm problemas ligados à área de cabeça e pescoço, de acordo com o otorrinolaringologista e cirurgião João Fanton Neto. Desses, 15% são portadores do câncer de boca.
“A nossa maior dificuldade é que os pacientes já se apresentam num estado avançado da doença”, destaca.
Assim como os demais tipos de câncer, o da cavidade bucal também precisa de um diagnóstico rápido para garantir sucesso no tratamento. “Se detectado logo no início, ele tem cura”, afirma Fanton Neto.
O auto-exame é o primeiro recurso que deve ser usado na prevenção. Pessoas que fazem parte do grupo de risco têm de prestar atenção aos sinais enviados pelo organismo. “Se notar qualquer ferida estranha na boca, a pessoa deve procurar um profissional da saúde e requisitar um exame minucioso”, alerta o otorrinolaringologista.