08 de julho de 2026
Cultura

A importância de ser Wilde

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

A peça estreou em 1895, se chama “A Importância de Ser Prudente” (“The Importance of Being Earnest”) e é um dos textos mais conhecidos e encenados de Oscar Wilde, dividindo com o livro “O Retrato de Dorian Gray” o título de obra-prima do autor. É uma comédia de costumes que conta as confusões causadas por dois homens que se apresentam com um nome falso (Prudente, em português, daí o trocadilho do título) para poderem “aprontar” longe de casa.

O grupo Seloart, formado por funcionários dos Correios de São Paulo transformou a obra em “Quanto Mais Contente Melhor”, a peça que a companhia apresenta hoje e amanhã, às 21h, no Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves”. O ingresso do espetáculo é 1kg de alimento não-perecível, que serão doados à entidades sociais indicadas pela Prefeitura Municipal.

A mudança do nome da peça se deve à influência de um artista não menos genial que o escritor irlandês, o cineasta austríaco que fez fama e carreira nos Estados Unidos, Billy Wilder, autor de filmes como “Crepúsculo dos Deuses”, “Se Meu Apartamento Falasse” e “Quanto Mais Quente Melhor”, de onde o diretor do Seloart, Moacir do Valle, tirou uma cena e a inspiração do título.

O resultado é uma comédia que tem a intenção de passar para o público a necessidade da alegria, e não da prudência. A adaptação, do próprio Valle, deu um toque musical ao espetáculo, transportando a ação da Inglaterra final do século 19 para o Brasil das décadas de 30 e 40, onde os cantores da época de ouro do rádio brasileiro “descem” ao palco e se colocam no lugar das personagens, cantando trechos de suas mais famosas canções como se fossem as falas dos próprios personagens, um efeito que acaba sendo divertido e didático ao mesmo tempo.

Levar conhecimento através da diversão é o principal objetivo do Seloart, explica Valle, diretor regional adjunto dos Correios na Capital. O grupo surgiu há 15 anos com o objetivo de realizar esquetes com temas relacionados às atividades da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT). Com a evolução do grupo, as montagens deixaram de ter vinculo temático com a empresa.

Assim, o grupo montou, entre outras, “O Alienista”, baseada no conto de Machado de Assis, que recebeu diversos prêmios em festivais de teatro amador, e “O Que Terá Acontecido a Baby Jane”, buscando levar ao seu público principal - os funcionários dos Correios - adaptações de textos pouco comuns no seu dia-a-dia. A história se repete com “Quanto Mais Contente Melhor”, uma boa oportunidade de apresentar a obra de Wilde e transmitir valores através da linguagem do teatro.

Segundo Valle, a principal característica do grupo para ganhar o público é usar a comédia. “Um texto denso poderia dispersar a platéia e dificultar o entendimento. A comédia cativa mais rápido”, diz. O trabalho porém é redobrado. “É muito mais difícil fazer comédia, porque tem a questão do tempo da piada, do público. Tem coisa que funciona no ensaio e na hora não e vice-versa”, afirma.

O elenco, de nove pessoas (fora figurantes) é formado por funcionários dos Correios e, apesar de amador, é muito experiente.

Há anos o Seloart tem se apresentado para platéias de fora do círculo da ECT, inclusive em outras cidades do Estado. “Quanto Mais Contente Melhor” foi montada pela primeira vez no final do ano passado e já foi vista por mais de cinco mil pessoas em São Paulo. Bauru é a primeira cidade do Interior a receber o trabalho e também é o primeiro local onde a apresentação é beneficente

• Serviço

Espetáculo teatral “Quanto Mais Contente Melhor”. Hoje e amanhã, às 21h, Teatro Municipal. Realização: Correios. Apoio: Jornal da Cidade e Secretaria Municipal de Cultura. Ingressos podem ser trocados por 1kg de alimento não-perecível. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 235-1072.

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Além do seu tempo

Oscar Fingall O’Flaher-tie Wills Wilde nasceu em Dublin, na Irlanda, em 15 de outubro de 1856, e cresceu num mundo particular, gostava de solidão, detestava exercícios físicos, e passava o tempo lendo poesia e os clássicos gregos. Em 1878, o autor se tornou bacharel em artes e em 1880 publicou a peça, “Vera” ou “Os Niilistas”, o primeiro de uma série de trabalhos que lhe deram fama nos círculos intelectuais da Inglaterra, França e Estados Unidos.

Em 1891 lançou seu único romance “O Retrato de Dorian Gray”, que no ano anterior havia sido divulgado na revista Lippincott. O livro conta a história de um homem que permanece sempre jovem, enquanto seu quadro demonstra marcas da passagem do tempo e de seu caráter perverso e desumano.

Wilde se tornou então o autor da moda no final do século 19, com peças como “O Leque de Lady Windermere”, “Um Marido Infiel” e “A Importância de Ser Prudente”.

No auge da fama, o autor se viu envolvido numa grande batalha judicial, acusado de “crimes de natureza sexual”. Apesar de casado e pai de dois filhos, Wilde era homossexual. Preso, foi condenado a dois anos de trabalhos forçados mas não deixou de produzir. Em 1897, após cumprir a pena, viajou para a França, adotando o pseudônimo de Sebastian Melmoth. Lá, produziu sua última obra: “Balada do Cárcere de Reading”. Morreu na pobreza, em Paris, em 1900.

Poeta com alma universal, viveu o sucesso e o deprezo, a alegria e a tristeza, tudo com muita intensidade. Foi inteligente e ousado demais, numa época e num lugar que impunham seriedade e reserva. Viveu pouco mas fez muito mais, e entendeu mais, do que a maioria dos homens consegue fazer e entender.