09 de julho de 2026
Articulistas

O elefante fragmentado


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Há uma fábula hindu que conta a história de três cegos que querem identificar uma “coisa” a sua frente. Na verdade, um elefante. Cada um toca apenas uma parte do animal para concluir do que se trata. Assim, o primeiro põe a mão na tromba e afirma estar diante de uma cobra. O outro, pega no rabo e deduz que se trata de um cipó. O terceiro abraça a perna do animal e crê que o objeto é uma árvore.

Essa historinha é ótima para ilustrar o que acontece com a fragmentação da informação provocada pela mídia, ávida por fatos que chamem a atenção do público sem se preocupar com o contexto. Um dia aparece a tromba que é apresentada como uma cobra. No outro, é a vez do rabo, vendido como cipó. E por aí vai. Por descuido ou de “caso pensado”, como se diz em Minas, a mídia deixa de juntar as partes e o elefante passa incólume. Essa fragmentação tolda a capacidade de discernimento do receptor da informação. Ele não consegue mais conciliar a retórica com a realidade do mundo. O elefante voa. Não porque tenha as orelhas do simpático Dumbo. Desaparece escondido na fragmentação das rotundas e luzes do palco que passam a ilusão de que o elefante sumiu, embora continue lá. Mas ninguém poderá acusar a imprensa de não ter apresentado os fatos.

É o que acontece com as caixas-pretas de setores importantes da vida nacional. Aliás, a palavra caixa-preta se banalizou. O registro blindado de mensagens trocadas entre tripulantes de aviões e controladores de vôo acabou caindo nos discursos dos políticos brasileiros. Lula pediu a abertura da caixa-preta do Judiciário brasileiro. Os magistrados contra-atacaram e cobraram a abertura da caixa-preta da Previdência. A crítica do presidente foi direta: “é preciso controle externo do Judiciário, saber como funciona a caixa-preta desse poder que se considera intocável”. Pelo jeito, Lula já viu o tamanho da sucuri de camelô abrigada na mala da Magistratura. A capitulação do governo às pressões do Poder Judiciário na questão previdenciária dão a entender que a anaconda é maior do que se esperava. Ao acenar positivamente por um acordo com os segmentos mais privilegiados do funcionalismo, Lula poderá ceder num princípio sempre defendido pelo PT, pelo menos no discurso: o da justiça social. Vai sacramentar duas castas na sociedade brasileira. Uma de vida mansa com aposentadoria integral e outra dos párias do INSS sujeitos a velhice sem dignidade.

A Previdência tem problemas que não são de hoje. Existem privilégios inegáveis na área pública, mas também é verdade que o INSS convive com fraudes, sonegações e calotes desde a sua criação. Só de créditos em dívida ativa são mais de R$ 100 bilhões. É verdade que o governo publicou a lista dos maiores devedores como se a tal caixa-preta tivesse sido aberta. Ficou por isso mesmo. Há dívidas que simplesmente foram apagadas do sistema de computação dentre as 300 mil empresas que descontam dos funcionários e não repassam ao INSS. Então, seria necessário abrir a caixa-preta da Dataprev, responsável pelo processamento da Previdência Social e pela concessão de pagamento dos benefícios.

Percebe-se por aí que quanto mais se fragmenta o elefante dos males nacionais menor a possibilidade de identificá-lo. Enquanto não houver vontade política de juntar as partes para eliminar de vez com o problema todo, vai continuar-como-está-pra-ver-como-é-que-fica. Isso vale para Bauru, “Oropa”, França ou Bahia. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)