Desvincular o diretor do grande chamariz dos palcos nacionais. Depois de anos levando multidões ao teatro por sua genialidade, sua trajetória, seus prêmios e pelo próprio nome, Antunes Filho iniciou um novo movimento na dramaturgia brasileira e pretende uma nova teatralidade em que propõe o primado do ator. Esta nova proposta de trabalho busca chegar ao fundo, destruir todos os macetes, todas as muletas que o ator dispõe e procurar as reais potencialidades dele e do teatro. Um teatro vivo, com atores vivos, sempre em trânsito, não um teatro de funcionários.
Ao avaliar a predominância nos palcos brasileiros de atores tecnicamente despreparados, carentes de recursos, com interpretações viciadas, viciosas e principalmente estereotipadas, Antunes buscou queimar os estereótipos e criou, há cinco anos, o “Prêt-à-Porter”, um trabalho anual realizado pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc Consolação, fundado e dirigido por ele desde 1978, e que pretende tornar o ator dono de sua expressão.
“A nova teatralidade propõe o ator senhor do palco. Sem interferência, ele cria, escreve e dirige totalmente possíveis cenas improvisando o tempo todo. Absolutamente livre de todo e qualquer dogma e comando. O “Prêt-à-Porter” é uma busca de renovação de oxigênio, uma fuga dessa mesmice estereotipada em todos os níveis do teatro. Há um exílio dos palcos, um exílio não somente dos atores, mas também dos autores e também do público que vive à sombra, entediado, sem saber exatamente o que se passa, mas que espertamente sabe fugir cada dia mais das casas de espetáculos. O “Prêt-à-Porter” é um não espetáculo que é espetáculo, uma improvisação que não é improvisação, um esboço descartável na sua aparência, mas uma reflexão sobre o fazer teatral”, define Antunes Filho no libreto da peça.
Afinal, o trabalho, que não é dirigido e sim coordenado por ele, é desenvolvido num espaço que não é palco, sem refletores, aparelhagem de som, assistentes de palco ou qualquer outra condição de um teatro convencional.
Segundo o elenco da quinta edição do projeto, Emerson Danesi, Juliana Galdinho Suzan Damasceno e a atriz bauruense Arietha Corrêa, são meses e meses de trabalho, de leituras, reflexões e muita prática através de exercícios diários, que pretende ser uma proposta básica.
O diretor quer assim mexer efetivamente com o espírito humano, com o desenvolvimento de cada ator e de cada espectador que precisa se conter para não entrar em cena tanto pela proximidade física do palco, um pequeno tablado, quanto pela intensidade e organicidade da representação.
A reportagem do JC Cultura assistiu a uma das apresentações de “Prêt-à-Porter 5”, em cartaz no Sesc Consolação, em São Paulo, a convite do diretor teatral bauruense Paulo Neves, que foi o professor de Arietha, e dos alunos do curso de teatro do Centro de Comunicação Inglesa (CCI) e participou de um debate com o elenco após a apresentação dos movimentos “Uma Fábula”, “Mulher de Olhos Fechados” e “O Poente do Sol Nascente”, com interpretação de duplas diferentes formadas pelos quatro atores, que vivem sempre personagens com experiências opostas tendo a frustração e a solidão em comum.
Sobre a organicidade do trabalho, o ator Emerson Danesi aponta que os exercícios físicos são fundamentais na retirada dos padrões e dos vícios físicos. “Eles liberam o corpo deixando-o uma massinha com os músculos escorridos e a respiração disponível para dar outras sensações. O que dá essa organicidade ao trabalho é esse o fluxo vivo do que está acontecendo neste momento, nesta relação. A criação do personagem vem muito do contato do olho, da respiração com a respiração e da disposição”, diz.
Apesar da programação do espetáculo ser intensa, a atriz Susan Damasceno revela que não dá para ficar idealizando o personagem, o contexto e o contato com o outro ator em cena são a referência de cada apresentação. “Não se pensa agora eu vou chorar, se chora de verdade, quando o sentimento bate e a cena pede.”
Dessa forma, Juliana Galdino justifica a diferença entre a reprodução diária e a criação diária. “Se você está reproduzindo você está pensando no que vai acontecer daqui a pouco, se você está criando não dá para desviar o foco”, pondera a atriz, que durante meses protagonizou “Medéia”, também dirigida por Antunes Filho, no teatro do Sesc Belenzinho, e corria para fazer o segundo movimento de “Prêt-à- Porter 5”, na Consolação.
“É um jogo onde você não trabalha com força, você emprega a energia necessária para traduzir a expressão, usa o músculo para fluir o movimento, nesse jogo você a prende a se perceber. Quando na verdade, no cotidiano, a gente está sempre parado querendo agarrar tudo.”
Nesse sentido, Suzan Damasceno acrescenta: “Você destrói as suas verdades. Mas as descobertas nunca acabam, a cada espetáculo temos um espetáculo novo, mesmo que o texto tenha sido fechado e aprovado pelo Antunes.”
“É um processo que nunca se fecha, pois se hoje fazemos isso, amanhã tem mais isso e mais isso...”, acrescenta Arietha Corrêa, explicando que o CPT é uma opção de vida, onde o processo de individuação do ator é cada vez mais vertical. “É uma experiência integral de estar vivo e de trazer composições e expressões como artista.”
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Movimentos
“Uma Fábula”, de Susan Damasceno e Arietha Corrêa
A primeira história coloca frente a frente duas mulheres que se conheceram numa festa e conversam sobre vida, família, hábitos, costumes. Uma é dona de casa acomodada no casamento, aparentemente feliz, e outra, solitária repleta de neuroses. Entretanto, a solidão das duas se confude.
“Mulher de Olhos Fechados”, de Juliana Galdino e Arietha Corrêa
No segundo movimento, uma jovem escultora recebe a visita de uma vizinha desconhecida, uma senhora de meia idade que lhe leva uma torta de maçã como presente. A iguaria desencadeia as transformações e desilusões das duas personagens, que terminam irmanadas pela tristeza.
“O Poente do Sol Nascente”, de Susan Damasceno e Emerson Danesi
A terceira história contrapõe uma prostituta a um cliente. Ele recusa os serviços da moça e pede a ela que lhe conte coisas de sua vida. Ela começa a falar e uma estranha relação se estabelece entre os dois, que se tornam cúmplices e antagonistas num episódio constrangedor e violento.
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De Bauru para o CPT, um modelo de atriz
Ela nasceu em Botucatu, mas foi criada em Bauru e teve seu talento lapidado por Paulo Neves. Em uma das atividades da antiga Oficina Cultural, que ficava na Rubens Arruda, Arietha Corrêa foi a escolhida por Laerte Morrone para protagonizar “O Diálogo da Carmelitas”, mas foi Ana Paiva, diretora da Elite Models, quem deu um empurrão na menina bonita de pele extremamente branca e rosto quadrado, mas meio gordinha, que assistia aos ensaios de um concurso de Gatinha da Capricho, no Bauru Tênis Clube, no final dos anos 80.
Com a força da diretora, a bauruense ganhou duas etapas do concurso, fez um composite, mas pouco depois escutou de Ana, que não tinha emagrecido para ser modelo, “era uma palhaça, não parava quieta para fazer fotos e que seu futuro era investir no teatro”.
Foi o que ela fez, buscou cursos, oficinas de atores em São Paulo, manteve-se branca mesmo no Rio de Janeiro e assinou contrato com a Rede Globo, onde fez três novelas: “Explode Coração”, “Labirinto” e “O Rei do Gado” e participou de outros de séries e casos especiais.
Arietha assume que gosta muito do veículo, mas admite que a televisão não tem nem tempo nem espaço para ter arte. “Ela nunca vai ter o tempo de pesquisa e de dedicação, nem o espaço que o teatro te dá para expressar sua arte. São veículos completamente díspares. Um tem um universo muito mais vertical e profundo da alma humana porque tem tempo e espaço para isso, eu repito. E a televisão está na nossa cultura de consumo rápido.”
Dessa maneira, aponta a felicidade de ter feito a Bárbara na minissérie “A Casa das Sete Mulheres” e participado de uma das poucas produções televisivas com cuidado de expressão artística na produção, pesquisa, trabalho de elenco.
Há mais de três anos, a atriz bauruense integra o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), onde já fez “Medéia” e agora desenvolve dois movimentos: “Uma Fábula” e “Mulher de Olhos Fechados”, de “Prêt-à- Porter 5” e confessa que ficou com medo de ser liberada do palco para fazer TV.
“Vou deixar isso claro: o Antunes só me liberou, pois já tinha combinado com o Jayme Monjardim há muito tempo sobre o projeto. Mas escondi do Antunes para ele não me mandar embora. Mas como chegou o prazo limite para fazer o trabalho na TV, eu abri o jogo e ele foi um amor comigo, me compreendeu e disse: ‘Vai, lá, que a gente segura a onda aqui.’ Foi por isso, que fui fazer ‘A Casa’. Porque o Antunes me ajudou a conciliar, pois era um projeto que tinha com o Jayme antes de entrar para o CPT. Mas acho que qualquer pesquisa é muito rica se você sabe trazê-la para a sua alma. Se você se coloca dentro do que você está fazendo como ser humano, seja no veículo que for está sendo rico”, finaliza a atriz hábil, talentosa e madura, que em um ato é uma dona de casa contida e um tanto constrangida e minutos depois se transforma numa artista ríspida e anti-social.