08 de julho de 2026
Ser

Vitória pela perfeição

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 9 min

A ficha desse atleta é extensa em todos os sentidos. O bauruense Artemio Caetano Filho tem 46 anos, 35 deles dedicados ao judô. É pai de Thaís, 23 anos, Arthur, 12 anos, Aimeè, 6 anos e Lara 2 anos e avô de Gabriela, 3 anos. Como judoca, coleciona mais de 200 medalhas, seis títulos brasileiros e no final do mês passado trouxe mais dois títulos inéditos em sua carreira, diretamente do Japão, mais precisamente da Kodokan, o palácio do judô no mundo.

Artemio é agora Campeão Mundial Master Individual de Judô na categoria M-4 até 81 quilos (peso meio médio), vencendo até japonês lutando em casa, e de quebra, ganhou o bronze na participação por equipe.

Ele chegou em Bauru na noite de sexta-feira, e já no sábado pela manhã estava em Igaraçu do Tietê, acompanhando seus atletas nos Jogos Regionais, onde foi devidamente homenageado, mas confessa que precisou dar bronca em um dos juízes da competição.

Lutando para conseguir a perfeição, Artemio mescla o lado enérgico e o zen. Para relaxar fora dos tatames, onde praticamente mora, passa horas com as filhas sem pensar em judô e procura fazer mergulho e paraquedismo para extravasar.

Questionado se sonhava em ter outra profissão que não envolvesse esporte, optou por ser milionário, desde que ao menos 20% de suas atividades fossem esportivas ou ligadas a ele. Afinal, o esporte alimenta o seu ser e a sua família, mas é preciso suar o quimono em vários lugares. Ele dá aulas no Bauru Atlético Clube, em três colégios particulares e ainda desenvolve trabalhos sociais junto à Secretaria Municipal de Esportes e Lazer.

O atleta veterano assume que já foi mais desregrado e mais vaidoso, mas hoje se cuida naturalmente. Quer viver 100 anos e chegar à faixa vermelha o grau mais alto que um judoca pode alcançar.

Ainda acertando o fuso horário e a agenda, Artemio conversou sobre esporte e vitórias com o Caderno Ser. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade – Como o judô entrou na sua vida e o que representa este título mundial a essa altura do campeonato? Artemio Caetano Filho – Eu comecei o judô simultaneamente com diversas outras modalidades, quando inaugurou o Sesi próximo a minha residência. Eu morava ali nos Altos da Cidade. Na verdade, o judô não foi uma opção única, comecei junto com o voleibol e o futsal. Fui desistindo das outras e cada vez mais gostando do judô. Fui me identificando, tendo certa facilidade na modalidade. Resumindo: eu me encontrei no judô. E me encontrei não só em relação à prática, mas também porque comecei a ter resultados desde cedo. Com três anos de judô, eu comecei a me classificar em campeonatos paulistas. Isso criou uma simpatia, quando você tem resultado, sempre quer mais. E assim foi... Fui crescendo dentro do esporte, ambicionando crescer com a faixa preta, chegar até ela, conseguir resultados nacionais. Posteriormente, foi na formação de atletas, um outro aspecto que me importei muito. Formar atletas de âmbito internacional como o Mário Sabino, a Sílvia Garcia.

JC – Já que citou os atletas, o que é mais emocionante: você ganhar uma coisa para si ou ver um atleta seu no pódio? Quando você viu o Sabino na Olimpíada, o que sentiu? Artemio – Olha, são emoções diferentes. Eu acreditava naquele momento que eu estava atingindo um ápice na realização profissional como técnico, à medida que era o que eu mais almejava, já que não tinha conseguido como atleta atingir uma Olimpíada, consegui colocar um discípulo. Então, naquele momento estava conseguindo isso. Eu não estava nem preocupado com o resultado. Era um objetivo que eu tinha conquistado naquele momento e que me satisfazia muito. Pessoalmente, eu não pensava mais em atingir um âmbito de campeonato mundial, mas aí surgiram as oportunidades na categoria master.

JC – Você nunca parou de lutar? Artemio – Não, nunca parei. No último ano e meio, eu parei de competir porque passei por uma cirurgia por causa de um acidente de moto. Fiquei afastado por quase dois anos de competições, mas de treinar, jamais. Eu retornei este ano com o objetivo de retomar os pódios do campeonato brasileiro que eu já estava ganhando nesta categoria. Mas também não pensava em mundial este ano, pela pedreira que é, por estar há dois anos afastado e por ter que ir competir no Japão, era praticamente uma afronta. Mas como ganhei bem o brasileiro, sem falsa modéstia, ganhei até com tranqüilidade e acabei me entusiasmando e pensando no outro aspecto: na oportunidade de conhecer o Japão... Estar competindo lá já seria uma grande honra e, num segundo plano estava a classificação. Então, o resultado superou as minhas expectativas. Eu fiquei muito feliz. A primeira luta foi até muito tensa por causa disso, embora fosse um adversário mais fraco, eu já estava preocupado com o resultado. A cobrança pessoal acabou fazendo com que a luta fosse tensa. A partir da segunda luta eu me soltei mais até porque o adversário era um japonês e eu tinha que desenvolver um judô bem ofensivo.

JC – E a torcida é absurda? Artemio – Ah, sim! A torcida brasileira é a mesma do futebol. Ela não chega a ser agressiva, mas é entusiasmada. É uma torcida que chamava atenção. Nós estávamos no Palácio do Judô, que é o Kodokan japonês. Então, para mim foi uma emoção tremenda.

JC – O fato de você ter ficado “preso” um tempo maior lá lhe ajudou a ter mais contato com a cultura e o judô na fonte ou só fez aumentar a ansiedade de voltar para casa e trazer as medalhas? Artemio – Teve toda a ansiedade que antecede qualquer competição. Claro que essa por ser de âmbito mundial foi bem maior. Foi meu primeiro mundial, foi no Japão e isso foi um complicador no aspecto psicológico. Mas eu acho que me sai bem. Tive as minhas dores de barriga, mas no final das contas deu tudo certo.

JC – O judô é um esporte que exige um atleta muito centrado. Naturalmente, você já tem essa coisa ou faz algum acompanhamento psicológico? Para esse mundial você precisou fazer alguma coisa antes? Artemio – Eu tenho os meus tratamentos.

JC – Quando você estava no mundial, o Rogério Sampaio, medalhista olímpico esteve aqui em Bauru para discutir o posicionamento do judô e viabilidade da Olimpíada no Brasil e ministrou uma clínica com profissionais locais que têm um currículo invejável. Precisa ter um evento grandioso que envolveu todas as unidades do Sesc no Estado de São Paulo para a gente perceber o quanto o judô na cidade é representativo. Por que isso acontece? Por que tem gente como você, o Caumo, da Luso, o Fittipaldi, no BTC, que estão insistindo desde muito tempo? Artemio – Provalmente é isso. Se formou um bom filão de judô na cidade e hoje a gente tem uma quantidade muito grande de praticantes. O judô aqui em Bauru é praticado não só em academias e clubes, mas em escolinhas, o que nos dá uma quantidade absurda de praticantes. Temos quase 2 mil praticantes de judô em Bauru. Isso faz com que a gente abstraia uma boa qualidade. E nós sempre nos preocupamos com a qualidade do judô praticado. Eu procuro fazer da prática do judô como foi no passado. Eu estudo, eu me aperfeiçôo, eu busco novos conhecimentos em relação à prática do esporte. Essa talvez seja uma das razões e talvez uma vocação natural da cidade para isso também. Nós temos Renatinha Silva que foi hexacampeã brasileira e tri sulamericana, a Sílvia Garcia foi três vezes campeã nacional. O nosso calendário anual é muito intenso e esses profissionais que você citou são muito engajados em preparar jovens atletas e obter resultados.

JC – Como esse é um caderno de comportamento, queremos conhecer um pouco da pessoa Artemio... Ganhar um mundial é uma coisa hours-concours, muito especial, fora ele qual um momento muito importante na sua carreira? Artemio – Olha, esse que a gente já citou de ter um atleta numa Olimpíada foi bastante significativo. Na verdade, os atletas constantemente estão passando por emoções fortes, porque seu objetivos são progressivos. À medida em que você os atinge... Eu queria muito a faixa preta, à medida em que eu conquistei essa graduação, foram surgindo novos objetivos: a faixa coral, que é o sexto grau, é um título bastante honorífico no judô. Nós somos chamados de kodanshas, os grandes mestres.

JC – Mas você vai querer ir além, né? Artemio – Eu já tenho carência para o 7.º DAN (grau), que é meu objetivo para o ano que vem, pois agora estou num momento pessoal forte. Então, essas questões da emoção no judô vão desde a participação num grande torneio e, às vezes, até uma pequena homenagem ou um pequeno detalhe nos projetos sociais que realizamos. É muito comum você ver uma atitude gentil de uma criança humilde da periferia e isso me emociona também. A gente constantemente está se deparando com uma sensação muito boa de bem-estar quando a gente consegue um resultado positivo com uma criança, isso acontece desde as portadoras de HIV, às com necessidades especiais e às extremamente carentes, que a gente consegue fazer com que elas voltem para a escola. Há dois anos, nós tivemos um resultado muito positivo, conseguimos 100% de aprovação dos alunos que participam dos projetos no Geisel, Rosa Branca, Centro Social Urbano (CSU), Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) e Casa da Esperança, no Fortunato Rocha Lima. Isso tudo porque a gente enfoca esse paralelo nos treinamentos e nos exames de faixa. A gente cobra mesmo. Quem quiser mudar de faixa vai ter que estar bem na escola, estar respeitando os pais, comendo verdura, fruta e legume, etc, etc. Eu me encontrei no judô justamente por isso, porque ele me completa de todas as formas, em todas essas emoções. O prazer de estar no Japão viajando, conhecendo, aquela terra maravilhosa... São pequenas grandes coisas.

JC – Já que está sempre cobrando os outros, você se cobra muito? Artemio – E como cobro!

JC – Em que aspecto você se cobra mais? Artemio - Em todos eles. Principalmente no aspecto de crescimento pessoal. Eu acho que esse é o mais importante, porque na vida toda a gente tem que estar procurando se aperfeiçoar. Como a gente tem na filosofia do judô: não se aperfeiçoando para lutar, mas lutando para se aperfeiçoar. Eu acredito muito nessa máxima que norteia a minha vida.