O segundo semestre começou mal. Enquanto o governo se esforça para reduzir os juros cobrados por instituições oficiais de crédito, tentando assim, ainda que de forma quase simbólica, iniciar a retomada gradual do crescimento, as tarifas da telefonia fixa e dos pedágios foram reajustadas, respectivamente, em 41,7% e 23,64%. Um abuso legal! Uma insensibilidade das teles e das concessionárias das praças de pedágio que, além de agravar o custo Brasil, pode significar, no curto prazo, um tiro no pé.
É sabido que, antes mesmo do reajuste das tarifas, a inadimplência nas contas de telefonia fixa no Estado de São Paulo era bastante alta, acima de 23%. Ou seja, quase um quarto dos usuários paulistas de telefones fixos atrasava o pagamento de suas contas. Ora, não será surpresa se, numa economia estagnada, com o desemprego e a informalidade em alta, essa inadimplência histórica agravar-se nos próximos dois ou três meses, em escala nacional.
Por sua vez, a queda no faturamento das concessionárias das 79 praças de pedágio do Estado de São Paulo poderá acontecer já neste mês de julho, no qual, tradicionalmente, a classe média (melhor seria dizer o que restou dela) costuma tirar suas férias de inverno.
O custo de uma viagem de 300 Km, iniciando na Capital paulista, só em pedágios, é de quase R$ 60,00, por carro!
Imagine, leitor, o impacto da alta das tarifas de pedágio no transporte das mercadorias, num país como o nosso em que, infelizmente, por volta de 70% do transporte de carga ainda são feitos por caminhões. Uma insanidade!
A telefonia fixa, como se sabe, é componente dos mais importantes nos custos das empresas, sejam elas comerciais, industriais ou de serviços. Com o reajuste de 41,7%, aliado ao prolongado arrocho fiscal, e à queda geral do consumo, o que impede o repasse dessa alta, no todo ou em parte, o que restará para as Empresas?
Na época de vacas magras em que nos acostumamos a viver, há pelo menos uma década, são cada vez mais comuns descontos, dados por locadores a inquilinos, tanto nos aluguéis residenciais como e, principalmente, nos comerciais, formando uma espécie de cadeia de solidariedade em que os mais fortes – os locadores – abrem mão de parte dos reajustes contratuais a que teriam direito para não agravar ainda mais a vida da parte mais fraca, os inquilinos.
É que os locadores sabem que a intransigência em épocas de crise não leva a nada. Só faz as coisas piorarem para eles, para os inquilinos e, por extensão, para toda a sociedade. Até supermercados costumam reduzir margens de lucro e repasses de reajustes em épocas difíceis. O mesmo acontece com fabricantes de medicamentos de uso prolongado que, ao contrário das operadoras de telefonia fixa e das concessionárias de pedágios, mantiveram seus preços praticamente inalterados, num claro indício de que a ausência de opções, gera o monopólio privado e seus abusos.
Lembramos às concessionárias de telefonia fixa e das praças de pedágio que a intransigência legal que acabaram de praticar pode, no futuro, transformar-se em uma armadilha, na medida em que cria, no imaginário popular, e no dos usuários em geral, a expectativa da volta da estatização dos serviços públicos essenciais. Um tiro que pode sair pela culatra. (O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - FENADVB)